... Nº 0952 - O VENTO DE QUATRO ASAS - SÉRIE: CONTOS FANTÁSTICOS DE MAYANDEUA

 


Era uma tarde de primavera, com o céu espelhando o azul primeiro. O ar trazia perfume de flores recém desabrochadas e a promessa de eternidade repousava sobre a mata. Mas o tempo, esse artesão inquieto que molda o destino com mãos de vento logo se impacientou.

Nuvens densas subiram do horizonte, muralhas de sombra a encobrir a doçura do dia. O vento começou seu ritual: primeiro sussurro, depois brado. Arrancou folhas, vergou galhos, dispersou ninhos e vozes. O mundo, por um instante, pareceu dobrar-se ao feitiço de uma força ancestral.

Foi então que o sopro do destino  ou talvez o próprio espírito do vento fez cruzarem-se duas criaturas de naturezas distintas: uma borboleta, leve como o pensamento, e uma abelha, firme e persistente como o tempo. Ambas foram colhidas pela ventania e lançadas ao espaço, rodopiando entre relâmpagos e folhas desgovernadas. Por instinto, resistiram. Mas o vento não era mero ar em fúria  era um ser vivo, antigo, como a força de cem Sacis e Curupiras,  dotados de vontade e memória. Uivava como fera guardiã, provando os corações que ousavam enfrentá-lo.

Em meio ao caos, a borboleta e a abelha descobriram um segredo: sozinhas, seriam levadas para sempre. Então uniram voo e coragem  e, juntas, seguiram rumo ao desconhecido.

Enquanto lutavam, o medo se dissolveu em palavra. A borboleta falou primeiro, sua voz um murmúrio:

— Um dia fui terra. Rastejei como lagarta, tocando o chão e a dor. Depois veio o sono, e sonhei que era nada. Quando despertei, o mundo havia mudado e eu podia voar. Desde então, busco entender o milagre das minhas asas.

A abelha respondeu, com o timbre da colmeia e o som do trabalho:

— Eu, ao contrário, nunca dormi para sonhar. Nasci com a missão de construir, de alimentar o que vive. Cada flor é uma promessa. Mas ultimamente, sinto que o mundo esqueceu de nós: as flores rareiam, o vento adoece, e até o sol parece cansado.

A borboleta, ainda trêmula, respondeu:

— Talvez seja o próprio tempo pedindo cura. E talvez sejamos nós, frágeis como somos, o remédio que ele precisa.

O vento, como quem escuta um sagrado esquecimento, amansou-se. Tornou-se brisa. Levou-as a planar sobre uma paisagem transformada: as árvores tinham rostos, as nuvens lembravam animais extintos. O mundo pulsava em consciência.

Abrigaram-se no interior de um tronco de uma sumaumeira, onde inscrições antigas tremeluziam como cicatrizes luminosas. Dali emanou uma voz profunda, grave como o coração da Terra:

— Filhas do ar e do pólen, atravessastes o vento do esquecimento. Muitos buscaram o equilíbrio, poucos ouviram o que o vento dizia.

A abelha ergueu o ferrão.

— Quem fala?

— Sou o espírito do tronco,disse a voz. 

— Fui semente quando o mundo ainda aprendia a respirar. Vi flores morrerem e rios mudarem de leito. O vento que as trouxe não é castigo: é chamado. A natureza pede lembrança.

A borboleta pousou sobre a casca antiga, sentindo sob as patas a seiva viva da memória.

— Então o vento nos escolheu?

— Sim. Cada uma carrega um dom. Tu, borboleta, és a beleza que desperta o renascimento. Tu, abelha, és a força que mantém o ciclo do mundo. Unidas, reacendem o pacto entre o sonho e o trabalho.

O medo cedeu lugar à compreensão: não eram vítimas da tempestade, mas mensageiras de um antigo equilíbrio.

Quando o sol voltou, abriu-se como bênção sobre o mundo lavado. As duas criaturas saíram do abrigo com asas úmidas e um brilho interior como se cada uma guardasse em si um fragmento da própria Mãe e de todas as Mães... Voaram lado a lado. Onde passavam, flores se abriam, árvores reverdeciam, lagos recobravam o brilho. O vento, agora sereno, seguia-as como um guardião invisível.

Antes da despedida, a borboleta disse:

— Quando o vento soprar forte, lembra-te de mim. Ele não será ameaça, mas o chamado da esperança.

E a abelha respondeu:

— Quando o mel for doce demais, lembra-te do equilíbrio: nada floresce sem o esforço, mas nada perdura sem o sonho.

Desde então, dizem os antigos, que quando o vento muda repentinamente, é porque a borboleta e a abelha voltaram a dançar no ar renovando o pacto secreto entre a vida e o tempo no Reino de Mayandeua.

- Assim Primolius sonhou!


FIM

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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0952

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