* Nº 0951 - COTIDIANO DO HOMEM DE MAYA - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA


Uma árvore debruça-se sobre o igarapé, como se estivesse cansada de tanto observar a vida passar. Suas raízes, meio submersas, tocam as águas lentas e barrentas, enquanto galhos longos se estendem, procurando o sol que se derrama preguiçoso entre as copas. Ali, o tempo parece ter outro ritmo, mais compassado, mais vivo. Cada gota d’água que escorre das folhas é um segundo que se eterniza. 

Ao fundo, o curió entoa sua sinfonia matinal, um canto que ecoa pela mata e se mistura ao farfalhar das folhas dos bacurizeiros e cajueiros e ao murmúrio do igarapé. É uma melodia simples, mas profunda, feita de pausas, de respiros, de silêncios que também falam. Um som capaz de encantar até mesmo os ouvidos mais distraídos, como se fosse o próprio coração da Ilha de Maya  pulsando em notas.

Mais adiante, a cotia corre em silêncio. O pelo eriçado, os olhos vivos, a respiração curta. A vida nela é puro instinto. Um fio tênue entre o susto e o repouso. E, em seu último suspiro, ela se entrega à sina de ser presa. A natureza é assim: bela e cruel em um mesmo gesto, como se a harmonia do mundo dependesse também das dores que o compõem. (Parentes choram)... 

Os açaizais e coqueirais balançam ao vento, dançando como se fizessem parte de uma coreografia esquecida pelos nativos . O vento sopra forte e espalha literatura, lembranças, gargalhadas antigas. Cada folha que se move parece contar uma história , de amores que se perderam no tempo, de pescadores que ainda vivem nas margens, de crianças que um dia nadaram nas águas rasas. A ilha fala, sussurra, canta. E quem escuta, nunca mais se cala.

Tudo vibra em harmonia: o corpo do homem que caminha descalço, o chão úmido do igarapé da Nazaré, as folhas que tremulam sob o sol. E o sol, ah, o sol de Maya! Ele enfeitiça tudo ao seu redor acende as cores, desperta os cheiros, aquece as peles e ilumina os caminhos que serpenteiam pela  Trilha Encantada da mata. Seu brilho toca até o fundo dos mangues, onde peixinhos dançam em cardumes apressados, desenhando formas fugidias de luz e sombra.

Os bambuzais e taperebazeiros tangem ao vento, firmes e altivos, como testemunhas silenciosas do tempo. Seus troncos longos apontam para o céu, tentando alcançar o infinit. Ao longe, o som ritmado do machado corta o ar  galhos cedem, troncos caem, e a mata parece respirar em compasso com o homem. Cada golpe traz em si um conflito: a necessidade e o remorso, o sustento e a perda.

No meio dessa paisagem viva, um caboclo repousa à sombra. A pele curtida  guarda a história do dia. Nos lábios, o brilho úmido da cachaça  que desce devagar, aquecendo o peito e convidando o corpo ao balanço sereno da rede. O olhar dele se perde nas copas, acompanha o voo das garças, as voltas lentas das borboletas, o reflexo trêmulo da luz na água. Tudo é prece e descanso. O pássaro, persistente, continua a cantar. Agora faminto, busca alimento entre os galhos. A mata de Maya segue seu curso: santuário e labirinto, ventre e abrigo. Nela, homens, animais e plantas coexistem em silêncio, em luta e em graça  cada qual cumprindo sua parte na grande engrenagem invisível da vida.

Flores brotam nos cantos mais ocultos, tímidas e altivas, revelando cores que se insinuam entre o verde espesso da mata. São pequenos milagres cotidianos, testemunhos da beleza que só quem tem alma de mato sabe enxergar. O caboclo, filho dessa terra, sente-se inteiro aqui  onde o mundo é generoso, o tempo é lento, e a vida se traduz em gesto, cheiro e memória.

E então, no ar, paira um perfume inconfundível: café fresco sendo coado em alguma casa próxima. Em Nazaré o aroma atravessa o igarapé, mistura-se à umidade da terra, ao doce distante das frutas maduras e ao sal das lembranças. É um cheiro que desperta lembranças antigas, consola corações e anuncia o recomeço. Um cheiro de café no ar. Simples, mas carregado de significados. É o sinal de que o dia esta terminando, hora da merenda, presentes  de que a vida se refaz em cada entardecer. Como tudo nesta existência cabocla: pura, forte, generosa e sagrada em sua simplicidade.

- O Homem dorme aos olhos do Curupira por perto...

-  Segredos destes (re)cantos...

 -  Assim narrou Primolius em uma tarde de Nazaré.


FIM

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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0951


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