* N° 0948 - CANTO DE LAVADEIRAS - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA


Os igarapés — essas finas artérias que serpenteiam a pele viva da floresta — despertam com o primeiro sopro de luz. O sol, ainda tímido, emerge entre as copas úmidas, tingindo  o vapor que dança sobre as águas. É o prenúncio do dia. O murmúrio dos pássaros se mistura ao rumor líquido da correnteza, compondo uma sinfonia que só a alma ribeirinha é capaz de compreender.

As mulheres chegam aos poucos, em procissão silenciosa, equilibrando bacias, cestos e esperanças. O chão de barro e areia cede sob os pés descalços, enquanto o perfume do sabão  se mistura ao da mata e ao hálito do rio. O ar é espesso, doce, e parece guardar um segredo. Cada passo, cada gesto, é parte de uma coreografia antiga — um ballet natural que o tempo não ousa apagar.

A correnteza, generosa, acolhe as roupas que caem nas águas com um som grave e compassado. As mãos, calejadas e firmes, conduzem a dança: ensaboam, torcem, mergulham. O sabão faz brotar espumas brancas, pequenas nuvens que flutuam pela superfície como pensamentos soltos. E é entre essas bolhas que nascem as cantigas de lavadeiras — melodias que sobem da garganta e descem ao rio, fundindo voz e corrente em um só canto.

Cada mulher carrega sua própria história, e cada canto revela uma memória. São hinos de resistência e ternura, legados de mães e avós que aprenderam a transformar o trabalho em ritual. Quando uma voz inicia o verso, as outras respondem em coro, num eco que se espalha entre as árvores. As águas vibram, como se também participassem do canto. A floresta, cúmplice, escuta.

Surge então Dona Maroca, senhora de presença luminosa e andar seguro. Na cabeça, uma “troxa” de roupas desafia o equilíbrio, mas não a sua altivez. O lenço colorido que lhe cobre o cabelo reflete o esplendor do sol, enquanto suas mãos guiam os pequenos Juca e Mariazinha, que correm pela margem com alegria descalça. Quando chegam ao igarapé, Maroca solta uma gargalhada farta — som que se mistura ao das águas — e logo começa o labor. As roupas ganham vida entre suas mãos, como se o tecido respirasse.

Mais adiante, Dona Helena surge equilibrando uma bacia de louças. Bules, pratos e panelas tilintam num balé metálico. O chão escorrega, e três utensílios se desprendem, lançando um breve alvoroço no ar. O som do metal ecoa pelo vento, mas ninguém se abala. Ao contrário, risos explodem. “É o espírito da água brincando conosco!”, comenta uma das mulheres, e o riso coletivo confirma a cumplicidade do grupo.

O cenário é um teatro vivo: o sol acende as folhas, o vento gira nas árvores, as sombras dançam sobre a superfície líquida. As mulheres, com seus trajes amarrados, exibem corpos livres de constrangimento. Ali, entre as águas e o barro, a vergonha é palavra que não brota. A natureza é espelho e testemunha. Quando uma delas solta um “porronca” — grito  que nasce do peito — é como se toda a floresta respondesse, ecoando a força e o orgulho das que ali vivem.

Do alto do tronco velho de um pau-grande, árvore centenária que guarda os segredos do rio, Mariazinha toma impulso. O corpo pequeno, em arco de liberdade, rasga o ar antes de mergulhar com um “thibum!” que espanta os pássaros e arranca gargalhadas. O riso contagia a todos, e por um instante o mundo parece suspenso — pura alegria líquida.

Do outro lado da margem, um trovador lança sua linha de pesca. Seus olhos seguem a boia, mas seus ouvidos se perdem nas vozes femininas que cruzam o ar. As melodias das lavadeiras o envolvem, como se o chamassem para um tempo remoto, onde a vida era feita de ritmo, suor e canto. O peixe, talvez encantado pelo mesmo feitiço sonoro, ignora o anzol.

Essas manhãs de labuta são mais do que simples gestos de sobrevivência — são atos de comunhão. Cada movimento é uma oferenda à terra e às águas. As mulheres lavam as roupas, sim, mas também lavam a alma, o cansaço, a solidão. Enquanto torcem o tecido, torcem também as angústias; enquanto o sabão escorrega, a dor se dissolve. As águas do igarapé levam embora o peso invisível do cotidiano e devolvem leveza.

Quando o sol atinge o ápice, o igarapé se transforma em um mosaico de cores. As roupas estendidas ao longo das margens formam um arco-íris ribeirinho: lençóis brancos, panos floridos, cueiros de bebê. Tudo brilha sob a luz que parece abençoar o trabalho humano. O riso ainda ecoa, e a conversa segue solta — sobre colheitas, filhos, amores, promessas e saudades.

Ao longe, a mata suspira. O rio continua seu curso, levando as histórias que ouviu. As espumas se dispersam, as vozes se desfazem, mas algo permanece — uma energia sagrada, um murmúrio antigo que liga todas aquelas mulheres às águas e às ancestrais que um dia também cantaram à beira de outros igarapés.

Porque, no fim, os igarapés não são apenas cursos d’água. São templos de convivência, onde a natureza e o humano se entrelaçam num mesmo verso. São lugares onde se aprende o valor da partilha, da escuta e do silêncio. E enquanto o trovador, teimoso, insiste na pesca inglória, as lavadeiras seguem seu bailado, conscientes de que o verdadeiro tesouro não é o peixe, mas a harmonia tecida entre as mãos, o canto e o rio

- Assim narrou Primolius! 


FIM

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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0948


 

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