* N° 0947 - MAYANDEUA: ÁGUAS DE SEGREDOS - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA

 


A primeira vez que pisei em Mayandeua, tive a sensação de que o tempo, cansado de tanto correr, resolvera tirar umas férias. O calor úmido grudava na pele como lembrança antiga, mas era um calor afetuoso — daqueles que abraçam, como o colo de uma avó que acolhe o neto com cheiro de café passado e tapioca na xícara. O ar trazia o perfume do mangue: mistura de sal, terra molhada e raiz viva. Um aroma ancestral, impossível de engarrafar, porque pertence ao próprio espírito da ilha.

O silêncio ali não é ausência — é presença. Entre o coaxar dos sapos e o farfalhar das folhas, o som do vento sopra histórias que o tempo esqueceu de apagar. A imensidão verde parece respirar, pulsar junto com o coração da gente. E nesse respirar coletivo, o corpo entende o que a mente teima em esquecer: somos parte daquilo que chamamos natureza. Não há fronteiras, apenas um contínuo diálogo entre o rio mar, o céu e a alma das folhas dos mangueiros.

Foi nesse cenário que encontrei Seu Zé Ryodes, velho pescador de mãos calejadas e olhos fundos como poço de lembranças. Ao lado dele, Thiagy, um menino magro, de passos curiosos e riso fácil, caminhava descalço pelas margens do rio. De mãos dadas, pareciam dois tempos do mesmo relógio — o passado guiando o futuro com paciência e ternura.
Seu Zé mostrava as pegadas na lama, os caranguejos escondidos, a dança lenta das marés. “O rio fala, meu filho. Basta aprender o jeito dele”, dizia. Thiagy ouvia com reverência, absorvendo cada gesto, cada palavra, como se o mundo fosse um livro sagrado e o pai, o seu escriba.

Mayandeua é uma escola sem paredes, onde a lição vem no ritmo da maré e a sabedoria se aprende com o silêncio das águas. O rio, de superfície calma e coração profundo, canta segredos antigos. Fala dos pescadores que desafiavam tempestades, das mulheres que esperavam à beira da praia, dos amores que o tempo levou e das lendas que o vento devolveu.

Quando o sol se despede atrás dos ajuruzeiros e o céu se veste de fogo, tudo se transforma em canto de carimbó. O vento passa por entre as raízes do mangue como se afinasse uma flauta invisível. As garças e itaquerês pousam em fila, as ondas se curvam em reverência. É nesse instante que Mayandeua revela o seu verdadeiro nome: terra onde as águas falam e o coração escuta.

- Coisas desta ilha!

- Assim narrou Primolius!


FIM


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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0947


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