* Nº 0949 - O GATO E O PEIXE - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA
O Sol, uma laranja em combustão suspensa no fim da tarde, teimava em não se render ao ocaso. O lugar de aqui, embriagado de luz, exalava o hálito quente de um antigo delírio. O vento, feito um feiticeiro errante, serpenteava entre os mangueiros como se ensaiasse um carimbó melancólico, desses que o tempo esqueceu de silenciar.
Ali, onde a poeira carrega os segredos da eternidade e a solidão é uma prece sussurrada ao chão de areia quente o, o destino tramou o improvável: uniu dois mundos que jamais deveriam se tocar o Gato Onofre e o Peixe Esmeralda.
Onofre era um príncipe dos telhados de palha e silêncios. Seu pelo, cor de tabaco envelhecido, guardava o brilho discreto da noite que amadurece. Nos olhos, duas moedas de ouro antigo refletiam o mistério daquilo que nunca se alcança. Tinha, porém, um desejo que o corroía: dominar as águas de Maya. Via no rio não um espelho, mas um convite o sonho líquido da leveza, o abandono do peso seco da terra. Para ele, nadar seria libertar-se da gravidade que o condenava à poeira e ao calor.
Já Esmeralda, senhor das profundezas, carregava outra inquietude. A maré, sua morada, tornara-se um cárcere úmido. Ele invejava o céu: essa miragem azul que lhe chegava em reflexos trêmulos, inalcançáveis. Desejava voar, tocar o vento, conhecer o silêncio dos altos, onde o som do mundo se dissolve. Queria, enfim, ser leve como o ar e esquecer o rumor eterno das águas.
Mas o destino, esse velho brincalhão que se alimenta de contrastes, preparou-lhes a armadilha perfeita: o dia em que o sonho se tornaria o próprio veneno.
Tomado por uma febre de audácia, Onofre saltou sobre o rio. As águas o receberam como amante. O que parecia seda transformou-se em aço líquido frio, denso, impiedoso. Lutou, mas o rio não cedia; afogava-lhe o orgulho e a ilusão.
No mesmo instante, Esmeralda, tomado por súbita rebeldia, lançou-se para fora da correnteza. Buscou o céu, e por um segundo o alcançou até a terra lhe cobrar o preço do desejo. Caiu sobre o leito de pedras, onde o ar, que imaginava salvação, lhe queimava as guelras como fogo invisível. E, enquanto o sol o secava com crueldade, seu último lampejo foi de espanto: o paraíso é mortal quando não se pertence a ele.
Foi então que o encontro impossível se deu entre o mar e a areia, entre a respiração e o suspiro final. Onofre, tossindo água e humilhação, avistou Esmeralda agonizando à margem.
Por um instante, o tempo suspendeu a lógica.
O olhar de um refletiu a dor do outro.
Não havia mais gato, nem peixe apenas dois seres despidos de orgulho, contemplando o abismo que os separava e, paradoxalmente, os unia.
Naquele olhar partilhado, compreenderam que haviam amado o que os destruiria. Que o erro maior não era desejar o impossível, mas renegar a própria essência.
E foi dessa compreensão que nasceu uma Amizade uma magia silenciosa, moldada pela dor e pelo reconhecimento mútuo. Onofre, de volta à terra, ensinou a Esmeralda a arte da paciência e o valor do repouso. Mostrou-lhe que a vida seca também guarda sua beleza: a firmeza da raiz, o segredo dos serenos da manhã, a soberania de quem suporta o sol.
Esmeralda, por sua vez, revelou a Onofre as vozes das águas o balé invisível das correntes, o silêncio que nutre a vida no fundo do mar. Ensinou-lhe que respeitar o mistério é mais nobre que tentar possuí-lo.
Desde então, tornaram-se companheiros. Onofre levava Esmeralda, protegido num pequeno balde de água, por entre as veredas poeirentas da vila. Mostrava-lhe as gramas secas, o perfume oculto das pedras e seu limo, o rumor do vento nas folhas retorcidas dos coqueiros.
Às margens dos lagos, Esmeralda retribuía com histórias líquidas: falava das tartarugas que dormem milênios, das raízes que bebem o segredo da chuva, das estrelas que se duplicam nas águas como lembranças. nos meses de setembro.
Assim viveram a terra que aprendeu a ouvir o mar, e a água que aprendeu a olhar o chão quente e branco. E Maya , testemunha silenciosa, compreendeu a lição que o destino lhes dera:
a verdadeira liberdade não está em mudar de natureza, mas em habitar-se por inteiro.
Pois quem se aceita, torna-se vasto; e quem respeita o limite do outro, descobre que a fronteira pode ser ponte.
E, no fim, Onofre e Esmeralda ensinaram que o amor mais puro é aquele que nasce não da posse, mas da permanência do impossível.
- Ou quase possível!
- Assim narrou Primolius numa tarde calorosa de Setembro.
FIM
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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0949


