N° 0940 - UM CURUPIRA "PRA" TI - SÉRIE: CONTOS DE MAYANDEUA



A poeira cor de terra queimada subia pelos tornozelos de Nikosinho, um menino de 12 anos, enquanto corria pelo quintal. Não era brincadeira dessa vez. Seus dedos miúdos apertavam com força um boneco de miriti: pés virados para trás, cabelos de folha e sorriso travesso. Era um Curupira — seu guardião particular, talhado pelas mãos do avô.

Dentro da casinha de madeira, à luz fraca de uma lâmpada pendurada no teto, Nikosinho folheava uma revista que seus primos trouxeram da cidade. As páginas mostravam imagens de florestas ameaçadas em terras distantes. No rodapé de uma reportagem, um endereço chamava sua atenção: era de uma instituição que dizia cuidar da natureza no mundo inteiro. O coração dele bateu mais forte. Talvez ali alguém pudesse ouvir o chamado do Curupira.

Pegou uma folha de papel e um lápis curto. A testa franzida, a língua presa entre os dentes. Linha por linha, as palavras nasciam. Depois dobrou a carta com cuidado, colocou dentro o pequeno Curupira de miriti e selou o envelope com fita adesiva, para que o guardião não escapasse antes de cumprir sua missão. Dias depois, a carta atravessava rios caudalosos, cidades barulhentas e continentes inteiros. Foi carimbada em aeroportos, lida por máquinas e, por fim, repousou na mesa de um gabinete europeu, onde decisões representavam milhares de pessoas. Ali trabalhava a Dra. Anyasi, uma diretora muito importante, conhecida por sua luta em defesa da biodiversidade.

Com olhar cansado, habituado a relatórios cinzentos e gráficos desanimadores, ela abriu o envelope. Ficou surpresa ao saber que se tratava de uma carta vinda do Brasil. (Lembrou de seus avós paternos que eram de Portugal)  Primeiro, encontrou o boneco. Passou os dedos sobre a madeira leve e os pés invertidos. Um sorriso discreto surgiu em seus lábios. Depois, leu a carta, escrita com a caligrafia ainda trêmula de uma criança de 12 anos, mas carregada de ternura e urgência:

Para a senhora Diretora da Biodiversidade do mundo,

Meu nome é Nikosinho, tenho 12 anos e moro na Amazônia, onde o Curupira vive de verdade. Vi na revista que muitas florestas estão com problema, até as que não são daqui. O Curupira é forte e protege as pessoas, os bichos e as árvores.

Meu avô fez este Curupira de miriti. Ele não é só brinquedo, é um guardião.

Estou mandando ele para a senhora, para ser um amuleto de proteção de todas as matas e florestas do mundo.

Quem andar com um Curupira na mochila, na bolsa ou na pasta terá a proteção da floresta. Os caçadores vão se perder, os que botam fogo esquecerão o caminho, e os que cortam árvores vão pensar duas vezes.

Por favor, faça muitos curupirazinhos de qualquer material reciclado, para as crianças do mundo inteiro. Assim a floresta não vai chorar mais.


Com carinho,

 Nikosinho, da Amazônia.


Dra. Anyasi, suspirou fundo. A fé inocente de Nikosinho ressoava como um grito silencioso. O boneco de miriti parecia ganhar vida em suas mãos: não era apenas um brinquedo, mas um recado ancestral da Amazônia. Ela colocou o Curupira ao lado do computador, entre pilhas de documentos. Pela primeira vez em muito tempo, acreditou que talvez a resposta para salvar as florestas não estivesse apenas nos relatórios e tratados, mas também na imaginação das crianças, na força dos mitos e na esperança que se reinventa.

Talvez o mundo precisasse, mais do que nunca, de muitos curupirazinhos — pequenos guardiões feitos de sonhos, miriti ou mesmo de materiais reciclados — para que cada criança pudesse carregar consigo a magia da floresta.

E assim, o pedido de Nikosinho começou a ecoar para além das paredes do gabinete, como uma semente lançada ao vento, destinada a florescer em muitos corações.

- Assim narrou Primolius em uma jornada até a praia da Princesa.


FIM

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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0940

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