Nas margens de um mar que parecia se estender até perder-se de vista, prosperava uma vila de pescadores, alimentada pelas dádivas do oceano. Ali, o vento salgado e a brisa marítima eram companheiros constantes, e as casas de madeira, pintadas em cores vibrantes, eram um espelho da vida simples e alegre que se desenrolava. Mas a relação da vila com o mar ia além da subsistência; as ondas, com sua força imponente, não moldavam apenas a paisagem, mas o próprio cotidiano dos pescadores, que, em sua sabedoria, conheciam os segredos das águas como poucos.
A pesca era o coração pulsante da vila, e entre os muitos desafios enfrentados pelos bravos homens do mar, um em particular se destacava pela sua complexidade e misticismo: a captura da Gurijuba. Este peixe imponente, de pele prateada cintilante que parecia refletir a luz das estrelas, guardava um segredo em seus ferrões venenosos, espalhados pelas costas e laterais, tornando-o uma presa tão temida quanto respeitada. Para aqueles que ousavam caçá-la, era claro que enfrentavam algo mais que um simples peixe; lidavam com uma criatura que carregava, em sua pele e movimentos, a própria sabedoria do mar. Os mais velhos da vila, com os olhos marejados de lembranças, contavam histórias de uma Gurijuba especial, que, em seus olhos profundos, trazia a chave para segredos antigos, capaz de prever mudanças repentinas no clima e guiar os pescadores aos melhores pontos de pesca, como um farol vivo nas águas turvas.
Em tempos passados, sussurrava-se a história de uma Gurijuba mítica, cujas escamas reluziam como ouro puro. Dizia-se que ela emergiu das águas do Furo Velho, um trecho de mar famoso por suas correntes traiçoeiras e misteriosas. A lenda narrava que, dentro dela, estava um colar perdido de uma princesa, Era um conto que acendia a imaginação de todos, alimentando o desejo insaciável de caçar essa criatura singular, transformando sua captura em mais que um desafio – era uma missão carregada de honra e misticismo, um rito de passagem para os pescadores mais ousados da vila.
Pescar a Gurijuba exigia mais do que apenas habilidade; era necessário um ritual de preparação, um balé de precisão e respeito pelas águas. As redes, tecidas com fios quase invisíveis sob a superfície, eram confeccionadas com a maior cautela, cada movimento de tecelagem uma oração silenciosa, uma promessa de reverência ao mar. Durante as noites, quando a Gurijuba se mostrava mais ativa, os pescadores se reuniam, iluminando a escuridão com lanternas suaves. A noite se tornava um momento sagrado, marcado pela espera paciente. O farfalhar suave da água e o canto distante das aves noturnas criavam uma atmosfera de profunda conexão, onde a pesca transcendia a mera atividade, tornando-se uma comunhão com o mar.
Quando a rede era lançada, as águas pareciam engolir a escuridão, e a vila se envolvia em um manto de silêncio e tensão. A captura da Gurijuba não era apenas uma questão de sorte; ela dependia de uma compreensão profunda dos ritmos do oceano. Às vezes, as horas passavam sem que nada fosse fisgado, mas os pescadores, imersos na quietude da noite, sabiam que a paciência era uma parte essencial do processo. E então, quando finalmente o peixe se entregava à rede, a vila explodia em celebração. O cozidão de Gurijuba, preparado com ervas locais e ingredientes secretos, tornava-se o centro das festividades, unindo a comunidade em torno de uma conquista compartilhada.
A captura de uma Gurijuba era motivo de grande alegria, e a vila se reunia para festejar. As crianças corriam pelas ruas de areia, enquanto os mais velhos compartilhavam histórias antigas sobre os mistérios do mar e a relação simbiótica entre os pescadores e o oceano. As festas eram marcadas por risos e danças, mas também por uma sensação de gratidão profunda, como se cada Gurijuba pescada fosse um presente do próprio oceano. A vila respirava um espírito de comunidade inquebrantável, onde cada captura reforçava o vínculo ancestral entre os pescadores e as águas que lhes davam a vida.
No entanto, apesar de toda a celebração, havia um mistério que jamais poderia ser completamente resolvido. Nos dias de lua cheia, quando as águas pareciam mais calmas e misteriosas, alguns pescadores juravam ouvir um canto suave vindo do beiradão, como se fosse a própria Gurijuba a cantar. Outros afirmavam ter visto luzes dançantes sobre as ondas, sugerindo algo além da compreensão humana. Esses relatos alimentavam uma crença antiga: os segredos da Gurijuba iam além do que os olhos podiam ver, lançando um véu de mistério sobre as águas e sobre a vila de pescadores. O canto da Gurijuba, dizem, carregava uma sabedoria que transcende o tempo e o espaço, um eco das profundezas do mar. Seria a voz do mar, expressando-se através dessa criatura mítica? Ou seria a Gurijuba uma representação de todos os mistérios e forças ocultas do oceano? Os pescadores que ouviam o canto sentiam uma sensação de transcendência, como se tivessem sido tocados por algo divino, um lembrete da eterna conexão entre o homem e o mar, um elo que não podia ser rompido, pois ambos dependem um do outro para sobreviver.
Com o passar dos anos, as minutas da Gurijuba se tornaram historietas, passadas ao longo de gerações. O peixe se transformou em um símbolo da sabedoria do mar e da relação mútua de respeito entre os pescadores e as águas. Mas o que realmente fazia a Gurijuba especial não era sua aparência imponente ou a captura desafiadora. Era a magia de suas histórias, a fé inabalável dos pescadores e o amor profundo pelo oceano que ela representava. Assim, a Gurijuba se transformou em mais do que uma criatura mítica. Ela era a voz das águas, o eco de uma sabedoria ancestral e o legado das gerações que viveram e morreram ao som das ondas de Mayandeua e Algodoal.
E assim, os pescadores da vila continuaram sua jornada, lançando suas redes e ouvindo o canto do mar. Porque, no fundo, as coisas de Camboinha — as histórias, as lendas, as tradições — faziam parte de algo maior. Eram os pilares que sustentavam a vila e sua conexão eterna com o oceano. E quem sabe, talvez um dia, quando as águas estivessem calmas e a lua cheia iluminasse o horizonte, alguém ouvisse o canto da Gurijuba mais uma vez, lembrando a todos que o mar e seus enigmas nunca poderiam ser completamente desvendados. E que somente os nativos da Ilha sabem os seus muitos segredos.
- Assim narrou Primolius em algum lugar de Camboinha!
FIM
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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0928