* Nº 0927 - QUANDO O RIO DEIXA DE FALAR - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA

 

(Direto de Mayandeua)

Em meio à vastidão da Amazônia, onde a vida pulsa no ritmo do rio, ergue-se uma vila, um mosaico de palafitas conectadas por pontes de madeira e laços de comunidade. Rosa, uma jovem de olhar profundo e alma ribeirinha, sente o chamado do rio em cada amanhecer. "O rio fala, menina. Sempre escute," ecoam as palavras de Dona Jacira, a matriarca da comunidade, tecendo a sabedoria ancestral em meio ao preparo da farinha de mandioca.

A vida naquele lugar  é um balé de canoas deslizando pelas águas, crianças gargalhando em seus mergulhos, o açaí que Rosa leva de casa em casa, e o prenúncio enigmático de João: "Se o rio deixar." A comunidade vive em simbiose com o rio, respeitando seus caprichos e dependendo de sua generosidade. Mas a calmaria das águas esconde um perigo iminente.

O assovio na floresta ecoa como um grito de alerta. Marcas de caminhões rasgam a terra, prenúncio de uma ameaça que se aproxima. "Estão aqui," sussurra Rosa, pressentindo a escuridão que se abate sobre seu lar. O rio definha, suas águas antes abundantes agora se esvaem, expondo o leito rachado e a angústia nos rostos dos ribeirinhos. "Sem o rio, nós não somos nada," clama Dona Jacira, convocando a comunidade à ação. Rosa, com o peso da responsabilidade em seus ombros, segura firme o colar ancestral, um símbolo de esperança em meio ao desespero.

Antônio, o emissário da cidade, chega com promessas de progresso e modernidade. "Infraestrutura, progresso, oportunidades," ecoam suas palavras polidas, despertando a desconfiança nos corações ribeirinhos. "Palavras bonitas não enchem barriga," rebate Dona Jacira, questionando as verdadeiras intenções do forasteiro. A floresta, outrora um refúgio seguro, agora esconde sombras ancestrais. Pegadas colossais e árvores derrubadas revelam a presença do Mapinguari, a lendária criatura da floresta, despertando o medo e a incerteza. O rio, antes um espelho cristalino, reflete um brilho vermelho, prenúncio de um perigo iminente.

Em meio à crise, a comunidade se une em uma celebração, buscando restaurar a esperança através da fé e da tradição. Dona Jacira entrega o colar ancestral a Rosa, confiando a ela a missão de proteger o rio e seu povo. Na beira do rio, um aviso enigmático surge nas águas: a imagem de um boto, fixando seus olhos em Rosa, como se quisesse transmitir uma mensagem ancestral. Liderados por Dona Jacira e Rosa, os ribeirinhos revivem os rituais ancestrais, cantando e oferecendo flores e frutos ao rio. As águas respondem, refletindo a luz da esperança e reacendendo a chama da tradição.

Anos depois, sob o sol forte que banhava as águas renascidas, Rosa, agora uma matriarca reverenciada, não apenas transmitia a sabedoria ancestral às novas gerações; ela a vivenciava. Seus ensinamentos ecoavam no preparo da farinha, na escolha das ervas medicinais e, sobretudo, na leitura atenta dos sinais do rio. "O rio é nosso lar, mas também nosso guia. Nunca se esqueçam disso," ensinava, enquanto o colar ancestral brilhava em seu pescoço, testemunhando a luta e a resiliência de um povo que aprendeu a ouvir a voz do rio e a proteger seu lar.

No entanto, nem todos os corações jovens escutavam com a mesma profundidade. A tentação das luzes distantes da cidade, das promessas de um "progresso" que muitas vezes esquecia suas raízes, seduzia alguns. Rosa observava com uma ponta de angústia a forma como certos conhecimentos se diluíam, como a habilidade de ler o céu para prever a chuva ou de identificar as plantas que curavam se tornava menos presente entre os mais novos, que agora olhavam para o celular em busca de respostas.

A perda desses ensinamentos milenares era, para Rosa e os anciãos, um luto silencioso. O que seria de uma comunidade que esquecesse o balé das águas, o canto dos pássaros como premonição, ou o remédio na folha mais simples? Era a perda da própria essência, da capacidade de viver em equilíbrio, da resiliência forjada por séculos de coexistência com a floresta. O mundo moderno, em sua busca frenética por soluções rápidas e tecnologias avassaladoras, muitas vezes desdenhava do conhecimento que não podia ser quantificado ou mercantilizado, sem perceber que ali residiam as chaves para a própria sobrevivência.

E era precisamente nesse ponto que a Amazônia, com seus saberes ancestrais, emergia não como uma relíquia do passado, mas como um farol para o futuro. O conhecimento ribeirinho, indígena e quilombola, nascido da observação atenta e do respeito profundo pela vida, oferecia ao mundo moderno uma crítica construtiva: a de que o verdadeiro progresso não reside na dominação da natureza, mas na sua compreensão e harmonia. A floresta ensinava a interconexão: que o desmatamento em um canto reverberava em secas distantes, que a poluição de um rio envenenava a vida em outro. Ensinava a medicina que curava sem destruir, a agricultura que nutria sem esgotar, a comunidade que prosperava na colaboração, não na competição.

Era um convite para que a humanidade desacelerasse, olhasse para dentro das comunidades mais antigas e percebesse que muitas das respostas para as crises climáticas, sociais e espirituais já existiam, organizadas  nas histórias, nos rituais e na própria forma de viver desses povos. Para Rosa, o brilho do colar ancestral em seu pescoço não era apenas um testemunho de uma luta vencida, mas um lembrete constante de que o rio não falava apenas para sua vila; ele sussurrava verdades universais. E cabia à humanidade moderna, se quisesse verdadeiramente prosperar, aprender a escutar.


- Assim narrou Primolius para uma cutia.


FIM

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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0927

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