*N° 0922 - APYÃ E A MELODIA ESQUECIDA - SÉRIE: FÁBULAS DE MAYANDEUA



Nas ilhas de Mayandeua e Algodoal,  vivia Apyã, um gnomo cuja sua essencia tinha a maresia e o segredo dos mangues. Seu ofício era a harmonia. Cavalgava cavalos-marinhos pelos furos e igarapés e sua confidente era uma Ynaurá, de olhos como o fundo do rio, que guardava as canções das águas.

Um dia, o vento trouxe do continente um lamento: o eco das cidades de concreto, onde os homens haviam se esquecido de ouvir a terra. Movido por esse chamado, Apyã decidiu partir. "Vá", sussurrou a Ynaurá, "Seja a ponte sobre as águas que separam a memória da pressa."

No continente, Apyã encontrou um mundo de asfalto e silêncio. Com sua gentileza, ele não impôs magia, mas a semeou. Às crianças, entregou búzios para que ouvissem o mar distante. Aos artistas, seixos de rio para que sentissem o pulsar da terra. Aos solitários, penas de guará para que seus corações aprendessem a voar sobre a tristeza.

Contudo, nas sombras da cidade, um Homem de pedra via a magia como desordem. Em sua torre de concreto e silêncio, ele ambicionava transformar toda a harmonia do mundo em lógica fria e previsível. Ao saber de Apyã, capturou-o, aprisionando-o em uma máquina projetada para drenar sua luz.

Mas a semente da magia já havia brotado. Longe dali, as crianças sopraram os búzios, os artistas aqueceram os seixos nas mãos e os solitários sentiram as penas vibrarem. Uma onda de esperança e memória cruzou a distância, invadindo a torre. A energia pura da conexão, um poder que a lógica do Homem de pedra não podia calcular, sobrecarregou sua máquina, que se desfez em pó. A torre ruiu sob o peso do próprio vazio.

Liberto, Apyã ajudou a reerguer a harmonia, até que a maré lhe trouxe uma canção da Ynaurá. Ele retornou a Algodoal e, no abraço de sua amiga, compreendeu sua verdade: não precisava escolher um lar.

Apyã tornou-se a própria ponte entre a maré de Mayandeua e o asfalto do continente. E dizem que, quando a brisa sopra mais doce na cidade ou uma flor teima em nascer no concreto, é o pequeno gnomo tecendo, fio a fio, a harmonia entre os mundos. 


Moral da história: A verdadeira magia não é um poder, mas a conexão que une todas as coisas.


Assim narrou Primolius!


FIM

Copyright de Britto, 2020

Projeto Literário e Musical Primolius N° 0922

Mensagens populares