*N° 0921- LAMENTO DE BOIÚNAS ENCANTADAS - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA
(Direto de Mayandeua)
Com a terra firme fugindo sob seus pés descalços, o homem da mata encara a mãe que já não o abraça. Agora, ela é uma paisagem de cicatrizes, marcada por troncos carbonizados e rios sufocados. Seus olhos, janelas de uma alma ferida, refletem lendas e Encantados antigos. Serpentes silenciosas testemunham o avanço do imprevisto. Aviões rasgam o céu, tão próximos das folhas mortas que parecem sugar o último suspiro da mata. Abaixo, a terra é quase sem cores. Acima, nem o voo colorido de pássaros. O instinto de sobrevivência as camuflou na paisagem cinzenta.
O lamento daquele homem ecoa por anfiteatros naturais, agora deserticos. O canto das aves e o farfalhar das folhas foram substituídos pelo gemido dos animais e pelo silêncio dos troncos feridos. É uma agonia ignorada pela capital distante, que celebra o progresso sobre a vida derramada na mata.
Em sua busca por refúgio, ele encontra apenas o vazio. Boto, boiúna, caipora, curumim – as forças ancestrais parecem ter desaparecido junto com a mata. É um morto-vivo em uma terra que o viu nascer, mas que agora lhe nega abrigo.
Mesmo sem rumo, uma trilha teimosa segue adiante. Um canto em extinção, quase um sussurro, se esconde entre as árvores. Ele grita, mas a voz é engolida pelo silêncio opressor da devastação. No chão, a carcaça de uma cutia é o ponto final na paisagem: o símbolo de uma conexão vital que se desfaz, levando consigo a alma da mata.
Ele agora caminha sozinho, o último guardião de uma memória que morre com ele. Em seus ombros, não pesa apenas a saudade, mas a responsabilidade de ser o ponto final de seu povo. Cada passo na terra devastada é um ritual de despedida, não apenas de seu lar, mas de sua própria identidade. A mata, antes um espelho de sua cultura, agora reflete apenas a ausência. Ele é o último eco de uma canção que o mundo esqueceu de ouvir, uma sílaba final pronunciada para ninguém.
- E assim aquele homem torna-se Encantado em algúm canto da Amazônia!
- Assim narrou Primolius!
FIM
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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0921


