* Nº 0265 - TEMPO DAS ÁGUAS FRIAS - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA
Há histórias que nascem das águas, daquela cadência suave que só os mares sabem entoar. Histórias que dispensam palavras para serem contadas, preferindo se entregar em versos sussurrados pelo vento, memórias salgadas e segredos escondidos nas profundezas. Foi assim que o barquinho entrou nas histórias de Primolius — um vulto pequeno e solitário, cortando o horizonte com a leveza de quem já aprendeu a dançar com as marés.
Era no tempo das águas frias, quando o inverno pintava o mundo com tons de azul profundo e cinza melancólico (Janeiro a Abril). O barquinho, simples e despretensioso, seguia seu destino sem hesitar. Não era imponente como as rabetas velozes. Mas havia algo nele — talvez a maneira como suas velas desgastadas ainda buscavam o céu ou como sua madeira rangia com histórias de tantas marés — que encantava qualquer olhar perdido no vasto mar de Mayandeua.
O barco vivia de narrativas. Não aquela escrita em papel, mas sim a que brotava das ondas e dos ventos fortes que o embalavam. Ele valsava pelos rios e furos como se fosse feito para isso, enfrentando tempestades sem jamais perder o compasso. Boleros antigos ecoavam em sua estrutura, afastando medos e respondendo às perguntas que as águas lhe faziam. Cada resposta era uma lição aprendida nas profundezas; cada decisão, guiada pelos segredos exclusivos do mar e do vento terral.
Mas o barquinho também tinha seus momentos de pura magia. Quando uma frente fria chegava, ele alçava suas velas como asas, abraçando o desconhecido com coragem. Era nessas horas que parecia mais vivo, navegando livre rumo ao campo azul infinito do horizonte. O sal impregnava suas velhas tábuas, deixando marcas de cada viagem, de cada história vivida. E então, com a ordem clara de "Avante!", ele partia novamente, sempre em busca de um novo trapiche.
No entanto, por trás dessa força tranquila, havia uma nostalgia que o acompanhava como sombra fiel. O barquinho carregava consigo lembranças de tempos ousados, de serenatas cantadas sob estrelas distantes. Seus limos, testemunhas mudas de tantas jornadas, cresciam lentamente sobre o leme, como se quisessem prender o barco à sua própria história. Às vezes, quando a maré baixava e o barquinho repousava na areia, ele parecia brincar de demolir castelos. Com um toque vadio, derrubava torres construídas pela imaginação das crianças, como se quisesse lembrar a todos que nada é eterno, nem mesmo os sonhos erguidos sobre a praia. E depois, com a próxima maré, retornava ao seu elemento natural, deixando para trás apenas pegadas de madeira e memórias fugazes.
Hoje, quando penso no barquinho, lembro-me de que a vida é muito parecida com o mar. Há dias de calmaria e outros de tormenta, mas sempre existe um horizonte a ser alcançado. Como aquele pequeno barco, devemos seguir avante, mesmo quando nossas velas estejam gastas e nosso casco marcado pelas intempéries. Afinal, é nas águas frias que encontramos a verdadeira essência da nossa jornada — e quem sabe, no final, possamos "dizer", como ele, sigamos " Avante!"
E lá vai o barquinho, navegando para algum lugar entre as estrelas e o sal.
- Idades chegando em Maya...
FIM
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Projeto Literário e Musical Primolius Nº 0265


