* Nº 0230 - A MÁQUINA DO VERDE - SÉRIE: FÁBULAS DE MAYANDEUA

Era uma vez um planeta onde a Terra e o Vento eram grandes amigos. A Terra mantinha as raízes das árvores presas em seus braços, e o Vento brincava com as folhas. Juntos, criaram um manto verde que cobria o mundo de norte a sul. Os animais viviam em harmonia: os pássaros cantavam histórias para as flores, os rios contavam canções às pedras, e até as montanhas participavam desta convenção.

Mas os humanos, em sua pressa de construir, esqueceram-se de ouvir. Cortaram as árvores para erguer muros de concreto, envenenaram os rios para alimentar máquinas, e o Vento, triste, recolheu suas brisas e fugiu para longe. Sem o seu sussurro, as sementes adormeceram no solo, e o verde desapareceu. O planeta tornou-se cinza, como um coração que parou de bater.  

Um dia, um velho sábio, conhecido como Guardião das Folhas, reuniu os animais sob uma única árvore que restara. "Precisamos criar algo que lembre aos humanos o que perderam", disse. Com galhos secos, teias de aranha e lágrimas de orvalho, construíram a Verdejante, uma criatura mágica com asas de libélula e raízes no lugar das pernas. Ela tinha o poder de despertar as sementes adormecidas, mas só funcionava se alimentada com folhas verdadeiras — aquelas que nasciam do amor entre a terra e a chuva.  

Por anos, a Verdejante voou pelo mundo, plantando novas árvores. Mas os humanos, cegos pela ganância, arrancavam suas folhas para vender como troféus. A máquina começou a enfraquecer, até que um dia, cansada, pousou no alto de uma colina e sussurrou: "Sem folhas do coração, não há renascimento".  Foi então que os animais decidiram agir. O castor construiu represas para limpar os rios, o tatu cavou buracos para plantar sementes, e o beija-flor, com seu bico delicado, regou cada broto. Até os humanos, tocados pela coragem dos bichos, começaram a ajudar. Cientistas criaram folhas artificiais, não de plástico, mas feitas de esperança e trabalho coletivo. Quando a primeira folha sintética tocou a Verdejante, algo mágico aconteceu: a máquina brilhou, e florestas brotaram do chão como estrelas na terra.  

O Vento, ouvindo o chamado da floresta, voltou trazendo consigo as sementes perdidas. Rios cantaram novamente, e o planeta respirou. A Verdejante, agora parte da própria natureza, transformou-se em um monumento vivo, onde os humanos e animais se reuniam para lembrar: o que é cuidado floresce, mas o que é amado nunca morre.  

Hoje, as crianças ouvem a história da Verdejante e do Vento que voltou para casa. E sempre que uma folha cai, elas sussurram: "Esta é uma carta da Terra. Não a deixemos sem resposta".  

Moral da Fábula: Natureza não é um recurso, mas uma conversa. E toda conversa exige escuta, respeito e tempo.

- Assim narrou Primolius!


FIM

Copyright de Britto, 2020

Projeto Literário e Musical Primolius N° 0230



Mensagens populares