* Nº 0180 - FAROL COM CHAVES - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA
Havia momentos em que as palavras pareciam escapar de Eferyus como sombras furtivas, deslizando por entre seus dedos sem deixar vestígios. Era assim que ele se sentia ao tentar capturar a alma do mar, do farol e das histórias que eles silenciosamente abrigavam. Eferyus desejava que suas frases fossem como o vento, percorrendo distâncias insondáveis até tocar os confins do Atlântico. Contudo, o vento era um aliado traiçoeiro; ele roubava suas palavras e as levava para destinos desconhecidos, sem jamais revelar seu paradeiro.
O mar, por outro lado, era um contador de histórias paciente e sábio. Ele guardava segredos nas pausas silenciosas entre uma onda e outra, nos intervalos onde o tempo parecia parar. Para Eferyus, ecoavam as pedras, testemunhas eternas da força impetuosa das águas. Ecoavam os barcos, carregados de sonhos e memórias. E ecoavam as sinfonias das ondas aos seus pés, como notas de uma melodia infinita, regida por mãos invisíveis.
Quando pensava no mar, inevitavelmente pensava também no farol. Eferyus ansiava por ser aquele guardião solitário, iluminando caminhos para os navegantes perdidos nas noites mais escuras. Ou talvez o timoneiro, aquele que decide quando zarpar e quando ancorar. Havia dias em que ele imaginava-se partindo para nunca mais voltar, entregando-se à correnteza, fundindo-se ao sal e à espuma, até que o horizonte engolisse sua existência. Seria uma forma de pertencer completamente ao mar, de tornar-se parte de sua vastidão infinita.
Mas lá estava ele, ainda na areia deste sagrado Atlântico, fluindo como um grão que dança ao sabor do vento. Cada grão de areia parecia carregar o peso de mil tempestades, enquanto o vento do Norte trazia consigo o frescor das florestas e o cheiro salgado do mar. Era neste encontro entre terra e água que Eferyus sentia a sincronia de uma dança invisível, uma dança que o unia ao mundo, mesmo quando estava separado por léguas de distância.
As ondas continuavam a ecoar em seu universo azul, como estrelas líquidas caindo do céu. E Eferyus, um homem nu de ideias, perdia-se entre o desejo de partir e a vontade de ficar. No silêncio da luz do farol, aquela que brilhava firme contra a escuridão, ele convidava alguém — ou talvez apenas a si mesmo — para dançar em seus pensamentos. Talvez ao som de uma canção de Carimbó, ou apenas ao ritmo do mar que nunca se cala.
E no mar... ah, no mar, os olhos de alguém brilhavam em algum lugar. Como faróis distantes, eles guiavam Eferyus de volta ao porto seguro da lembrança. Mesmo quando tudo parecia perdido, ele sabia que podia encontrá-los, refletidos na superfície das águas, como promessas que nunca se apagam.
No final, restava apenas o som das ondas, o vento que carregava seus pensamentos e a certeza de que, assim como o farol, alguns sentimentos nunca deixam de brilhar. Porque no coração do Atlântico, assim como no coração humano, há sempre espaço para a poesia, para o amor e para os olhos que brilham em algum lugar.
E assim segue a crônica de Eferyus, um homem que sonha com o mar, mas caminha sobre a terra. De quem deseja ser farol, mas compreende que sua verdadeira essência é a de um viajante em busca de si mesmo. No silêncio da noite, enquanto a luz do farol ainda dança contra as sombras, ele decide seguir os passos de Mayandeua, rumo à ilha de mistérios e belezas que só podem ser vislumbradas por aqueles que ousam cruzar o véu do desconhecido.
Dizem que lá, onde o tempo parece desacelerar e os ventos sussurram sonhos. Eferyus sabe que talvez nunca retorne ao mundo que conhece, mas algo dentro dele — uma força invisível como as correntes do Atlântico — o impulsiona adiante. Ele parte não para escapar, mas para encontrar, entre ondas e brumas, o eco das histórias que sempre sentiu pertencerem à sua alma.
No horizonte distante, enquanto a ilha emerge como um suspiro da terra, Eferyus entende que algumas jornadas não têm fim, apenas transformações. E que, mesmo longe do farol que tanto admirava, ele próprio se tornou luz — uma chama carregada pelo vento, destinada a iluminar os mistérios que o aguardam em Mayandeua.
- Sonhos de olhos acordados!
FIM
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Projeto Musical e Literário Primolius Nº 0180


