Nº 0759 - O CABOCLO DE MAYA - SÉRIE: CONTOS FANTÁSTICOS DE MAYANDEUA

 




No princípio, quando o mundo ainda estava aprendendo a ser mundo, quando as águas não sabiam se eram doces ou salgadas e a terra ainda tateava buscando sua forma, nasceu dele  não de ventre, não de ovo, não de semente  mas da própria necessidade que a ilha tinha de existir.

O Caboclo de Maya emergiu da espuma de uma onda que nunca deveria ter quebrado, nascida de uma maré que desafiou a lua, numa noite em que as estrelas caíram no oceano e ficaram presas entre o sal e a areia. Ele surgiu molhado de eternidade, com olhos que continham todas as tonalidades do verde  desde o verde-musgo dos manguezais até o verde-esmeralda das águas profundas, passando pelo verde-jade das folhas novas do mangueiro e o verde fantasma da fosforescência marinha.

Seu corpo não é carne, embora pareça. Não é água, embora flua. Não é árvore, embora tenha raízes invisíveis que penetram cada grão de areia da ilha. O Caboclo é feito de seiva e mistério, de lenda e maresia, de tempo líquido e sonhos solidificados. Quando caminha , e ele caminha, sim, embora seus pés nunca deixem pegadas,  o som que faz é o sussurro de mil folhas tocando as ondas.

Cabelos longos e selvagens, tecidos com algas negras e raízes aéreas, cascateiam por suas costas como quedas d'água. Neles vivem pequenas criaturas: caranguejos azuis que brilham no escuro, libélulas que nunca pousam, peixes minúsculos que nadam no ar como se fosse água. Seu peito largo é marcado por cicatrizes que não são feridas, mas mapas, cada linha conta a história de um mangue nascido, cada curva narra a saga de uma duna erguida, cada ponto marca o lugar onde uma criatura mágica tocou pela primeira vez as areias de Mayandeua.

Ele não é rei, pois reis governam. Ele não é deus, pois deuses comandam. O Caboclo de Maya é guardião, protetor, curador, tecelão dos fios invisíveis que mantêm a ilha respirando entre o real e o encantado. Ele é a própria consciência de Mayandeua manifestada em forma que caminha, pensa e cuida.

Sua morada não é palácio nem templo. É o coração pulsante do maior manguezal da ilha, onde as raízes se entrelaçam formando catedrais vivas, onde a água salobra murmura segredos, onde a luz verde filtrada pelas folhas pinta o mundo com tonalidades de sonho. Ali, num trono que é apenas um tronco caído coberto de musgo luminescente, ele se senta em meditação profunda, sentindo cada pulso da ilha como se fosse seu próprio coração batendo. Mas o Caboclo não permanece imóvel. Ele caminha. Pelas praias desertas nas noites sem lua, seus pés fantasmas tocam a areia deixando apenas um brilho fosforescente que se apaga em segundos. Pelos túneis secretos sob as dunas, onde correntes subterrâneas cantam canções esquecidas de carimbó. Pelas copas das árvores tortas onde o vento conta histórias que ninguém mais lembra. Ele patrulha, vigia, cuida, juntamente com todas as princesas de Maya.

E sua principal missão  a razão pela qual a ilha o sonhou para existência  é guardar os segredos líquidos de Mayandeua. Porque Maya não é apenas areia e mar, não é somente mangue e duna. Maya é repositório de mistérios tão antigos que precedem a memória humana. Segredos dissolvidos na água salgada, conhecimentos enterrados na lama dos manguezais, sabedorias codificadas no padrão das ondas. E cada um desses segredos é uma gota de seiva no coração do Caboclo, um fio verde pulsando em suas veias de água doce e salgada.

Foi ele quem ensinou à primeira tartaruga o caminho de volta à praia onde nasceu. Foi ele quem soprou vida nos primeiros corais que construíram os recifes protetores. Foi ele quem plantou as sementes impossíveis que germinaram nos lugares onde nada deveria crescer  árvores de raízes de prata que bebem lua em vez de água, flores que desabrocham apenas quando ninguém está olhando, frutos que curam não o corpo, mas a saudade.

O Caboclo de Maya não envelhece porque ele é o próprio tempo da ilha. Não adoece porque ele é a saúde que cura. Não morre porque ele é a vida que persiste. Mas isso não significa que seja invulnerável. Há coisas que podem feri-lo, embora sejam raras e terríveis. Quando uma árvore antiga é derrubada sem necessidade, ele sente como se um dedo fosse arrancado. Quando petróleo mancha as águas , ele vomita seiva negra por dias. Quando a ganância humana crava estacas na areia sagrada, ele sangra orvalho amargo. Cada ferida na ilha é ferida nele, cada violação da natureza é lâmina em sua carne líquida.

Mas o Caboclo não se vinga. Não é sua natureza. Em vez disso, ele cura. Trabalha incansavelmente, noite após noite, maré após maré, tecendo de volta os fios rasgados, cantando canções de regeneração para as raízes feridas, abençoando as águas poluídas até que recuperem a sua pureza.

E quando precisa de ajuda  quando as feridas são profundas demais para curar sozinho  ele convoca os seres encantados de Maya.

Cada criatura escolhida pelo Caboclo recebe o mesmo presente: um fragmento de seu poder, uma gota de sua seiva encantada, um fio de sua consciência ancestral. E cada uma, ao completar sua missão, deixa algo dele em troca  uma memória nova, uma perspectiva diferente, uma lição aprendida. Assim o Caboclo cresce, não em tamanho, mas em sabedoria, alimentado pelas experiências de todos aqueles que serviram Maya através dele.

Dizem os pescadores mais velhos  aqueles cujas barbas são brancas como espuma do mar e cujos olhos viram mais luas cheias do que conseguem contar que o Caboclo de Maya pode assumir muitas formas.

Às vezes aparece como um velho pescador de pele curtida pelo sol e sal, remendando redes na praia enquanto oferece conselhos enigmáticos para quem tem ouvidos para ouvir. Outras vezes é visto como um menino de olhos verde-água, correndo descalço pelas dunas, rindo com voz que soa como ondas quebrando. Há quem jure tê-lo encontrado na forma de uma garça gigantesca de penas cinzas, parada imóvel nas águas rasas, observando tudo com inteligência que nenhuma ave deveria possuir.

Mas sua forma verdadeira  aquela que ele assume quando está sozinho, quando pensa que ninguém está olhando  é a mais impressionante: um ser alto como as árvores mais antigas, com pele que muda de textura como as marés, ora escamas, ora casca, ora água corrente. Seus olhos contêm galáxias verdes girando em espirais lentas. Seus dedos são galhos vivos de onde brotam folhas que nunca murcham. De sua boca, quando fala, saem não apenas palavras mas também pequenas bolhas luminosas que flutuam e explodem silenciosamente, liberando fragmentos de sabedoria ancestral no ar.

E quando caminha nessa forma verdadeira, a própria ilha se curva em reverência. As árvores inclinam suas copas, as águas se aquietam em respeito, os ventos suavizam sua fúria. Até o Sol e a Lua  aqueles eternos rivais fazem uma pausa em sua dança infinita para reconhecer sua presença.

Mas há um mistério que nem os mais sábios conseguem desvendar: o Caboclo de Maya não está sempre desperto. Uma vez a cada sete anos, quando as constelações se alinham de forma específica e as marés alcançam sua altura mais baixa em séculos, o Caboclo entra em sono profundo. Deita-se no centro do manguezal sagrado, fecha os olhos de galáxias verdes, e permite que seu corpo se dissolva lentamente de volta para a terra e água que o formaram até chegar em sua morada que é na Pedra Chorona.

Durante esse sono que dura exatos sete dias e sete noites, Mayandeua fica vulnerável. Os segredos líquidos ficam sem guardião, juntamente nos Portais de Maya. Os Sete Guardiões dos Limiares  incluindo o Peixe-Abacaxi  intensificam sua vigilância, mas há sempre brechas, sempre sombras onde coisas que não deveriam existir tentam se infiltrar.

É nesses momentos que espíritos famintos do mar profundo tentam invadir as águas rasas. É quando Feiticeiras aproveitam para tecer suas armadilhas mais elaboradas. É quando a própria ilha treme, incerta, como criança que perdeu de vista sua mãe na multidão. Mas sempre, sempre, no amanhecer do oitavo dia, o Caboclo retorna. Mais forte, mais sábio, renovado. Ele emerge não do mangue onde se deitou, mas do próprio horizonte  caminhando sobre as águas ao nascer do sol, trazendo consigo o cheiro de terras distantes e sonhos esquecidos. Porque durante seu sono, o Caboclo viaja. Seu espírito desencarnado vaga por outras ilhas, outros mares, outros mundos. Ele aprende com os guardiões de lugares distantes, troca segredos com espíritos de outras terras, coleta conhecimentos que traz de volta para enriquecer Mayandeua. Retorna carregado de novas magias, novos encantamentos, novas formas de proteger e curar.

E os habitantes de Maya  tanto os comuns quanto os encantados  respiram aliviados quando veem sua figura alta no horizonte do oitavo dia, caminhando sobre espuma brilhante, com algas novas nos cabelos e conchas estranhas penduradas em seu pescoço. Há também momentos de alegria pura no coração do Caboclo.

Quando uma nova criatura nasce em Maya  seja peixe, pássaro ou caranguejo  ele sente o pulso daquela nova vida como música em sua alma. Quando a primeira chuva após longa seca finalmente cai, ele dança, e sua dança faz as árvores florescerem fora de estação. Quando dois seres se encontram em amor verdadeiro nas praias de Maya, ele sopra ventos suaves que carregam bênçãos perfumadas. E nas noites de lua cheia, quando a maré sobe ao máximo e as estrelas se refletem nas águas calmas, o Caboclo sobe ao topo da duna mais alta  não a ancestral onde o Peixe-Abacaxi mantém guarda, mas outra, a Duna dos Cantos (Próximo ao Farol Velho)  e ali, ele canta.

Sua voz não é humana. É o som do oceano falando através de garganta de homem. É o coro de mil criaturas marinhas harmonizando através de um único corpo. É música que existia antes de existir música, ritmo que batia antes de existirem corações. E quando ele canta, coisas extraordinárias acontecem. As estrelas pulsam no ritmo de sua melodia. Os peixes saltam das águas em coreografias impossíveis. As árvores balançam mesmo sem vento. E aqueles poucos humanos que têm o privilégio de ouvir  pescadores antigos, crianças puras, ou viajantes com almas abertas  sentem algo despertar dentro deles: a lembrança esquecida de que já foram parte do oceano, de que carregam sal ancestral no sangue, de que são eles mesmos fragmentos vivos do mistério que permeia toda existência.

O canto do Caboclo não tem palavras, mas conta histórias. Narra o nascimento de Maya quando ainda era apenas um banco de areia teimoso recusando-se a ser engolido pelas ondas. Canta a chegada dos primeiros manguezais, sementes viajantes que navegaram oceanos inteiros para encontrar casa. Lamenta as perdas  cada árvore caída, cada criatura extinta, cada segredo esquecido. E celebra as vitórias  cada nascer do sol testemunhado, cada tempestade sobrevivida, cada novo ser que escolhe Maya como lar.

E quando termina  sempre ao romper da aurora  ele se dissolve em névoa verde que se espalha sobre a ilha inteira como benção silenciosa, nutrindo cada folha, cada grão de areia, cada gota de água com um fragmento renovado de seu amor infinito por aquela terra encantada. Porque é isso que o Caboclo de Maya fundamentalmente é: amor transformado em guardião, cuidado manifesto em forma que caminha, devoção tão profunda que ganhou consciência própria.

Ele não protege Maya por dever, mas por natureza. Não a cura por obrigação, mas por instinto. Ele não poderia parar de cuidar da ilha assim como o oceano não poderia parar de ter ondas, ou o céu deixar de conter nuvens. E enquanto houver um grão de areia em Maya, enquanto uma única onda tocar suas praias, enquanto um fio de brisa atravessar seus manguezais  o Caboclo estará lá.

Caminhando sem fazer barulho.

Curando sem ser visto.

Guardando segredos que são mais antigos que o tempo.

Tecendo magias que sustentam a fronteira tênue entre o mundo comum e o reino encantado.

Sendo a ponte viva entre o que é e o que poderia ser.

— Assim é, assim foi, assim será. O Caboclo de Maya, espírito das águas encantadas, guardião dos segredos líquidos, tecelão de mistérios, protetor eterno da ilha que sonhou ele para existência tanto quanto ele sonhou a ilha para permanência.

— Assim narrou Primolius, que bebeu desta história nas águas sagradas, que a ouviu no sussurro das folhas, que a viu escrita nas espumas das ondas em noites de lua e magia.


FIM

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Projeto Musical e Literário Primolius Nº 0759



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