*Nº 0740 - ARTÉRIA MANGUE - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA





Na beira do mundo, onde a terra e o mar se entrelaçam num abraço eterno, encontra-se o manguezal, um santuário de vida que pulsa como um coração vivo. Ali, cada gota de água e cada grão de lama compartilham uma dança antiga e sinfônica, onde a geografia se torna uma fusão de carne e pulso. O mangue é mais do que um simples ecossistema; é a artéria viva do planeta. Em suas águas salobras, que serpenteiam como veias e artérias, o fluxo incessante das marés se assemelha aos batimentos cardíacos de um gigante adormecido. As ondas, como suaves sopros de vida, trazem e levam nutrientes numa constante troca entre o solo e o mar, mantendo o mangue em perpétuo movimento. Nesse universo vibrante, os caranguejos de cascas rubras são os incansáveis guardiões. Eles percorrem os túneis de lama como pequenos glóbulos vermelhos, deixando rastros que lembram pinceladas numa obra de arte viva. Suas patas ágeis desenham a vitalidade do mangue, alimentando e revitalizando o ecossistema com sua presença.

As árvores de mangue, com suas raízes expostas, atuam como o coração deste sistema. Elas capturam oxigênio e filtram a vida que circula em seu interior. Entre suas ramificações complexas, os peixes nadam como plaquetas, reparando e mantendo o equilíbrio desse vasto organismo. Suas escamas brilham como pequenas estrelas, refletindo a luz do sol num espetáculo de harmonia e regeneração. A cima, no céu, os pássaros planam como células do sistema imunológico, sempre vigilantes. Eles patrulham os céus, afastando intrusos indesejados e garantindo a segurança do mangue. Suas asas batem num ritmo constante, compondo uma melodia suave que ecoa sobre as águas, celebrando a resiliência e a continuidade da vida.

Entre as raízes retorcidas, a diversidade de vida reluz como um tesouro escondido. Camarões, moluscos e peixes encontram abrigo e sustento, formando uma família complexa de interdependências. Cada criatura desempenha seu papel, contribuindo para a grandiosidade desse concerto natural. Juntas, elas criam uma sinfonia de vida, onde cada nota ressoa com a promessa de renovação. Quando a tempestade se aproxima, trazendo consigo o vento uivante e as ondas rugentes, o manguezal se ergue como uma fortaleza viva. Suas raízes profundas e entrelaçadas formam uma barreira contra a fúria do mar, protegendo as linhas costeiras da erosão. Nesse momento de fúria, o mangue se revela como o bastião da esperança, resistindo bravamente às forças destrutivas.

E assim, dia após dia, o manguezal continua sua existência como um gigantesco organismo pulsante. Suas marés sobem e descem, suas águas fluem, contando a história de um mundo que vive e respira através desse labirinto aquático. A cada amanhecer, ele renova seu compromisso com a vida, testemunhando a beleza e a força de um ecossistema em perfeito equilíbrio. E nós, meros espectadores, somos convidados a admirar e proteger esse coração verde que bate à beira do mar da velha Mayandeua e Algodoal.

- Artéria de muitos! Salve os mangues. 


FIM

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Projeto Musical e Literário Primolius Nº 0740

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