*Nº 0697 - YQUETUS O BOTO DE DUAS ÁGUAS - SÉRIE: CONTOS FANTÁSTICOS DE MAYANDEUA
O boto Yquetus, com sua natureza alegre e sonhadora, deslizava pelas águas do rio, ágil e gracioso. Alimentava-se de peixes, camarões e frutos, capturados habilmente por seu bico fino. Seu cardume era seu refúgio, onde se sentia protegido e à vontade. Contudo, a percepção de que o rio encolhia tornou-se latente. Entre os muitos botos que disputavam espaço e recursos, ecoavam histórias de terras distantes, mares desconhecidos, aventuras sem fim. Uma semente de inquietação germinou em seu coração. Armado com uma concha lunar, herança de sua avó, ele despediu-se de seus amigos - o generoso pirarucu, a brincalhona ariranha, o respeitável jacaré - e lançou-se à jornada rumo ao desconhecido.
Nadou dias e noites, seguindo correntes e estrelas, guiado pelo instinto e pela curiosidade. Enfrentou perigos e descobriu maravilhas, até que, diante do vasto oceano, sentiu-se pequeno e maravilhado. No mar aberto, fez novos amigos e aprendeu novas habilidades. Tornou-se um nadador exímio, competindo em provas e eventos, conquistando fama e glória. Mas, mesmo em meio às proezas marítimas, uma saudade sutil o atraía de volta às origens.
O retorno ao rio foi uma jornada de reencontros e reflexões, onde a sensação de pertencimento e alegria preencheram seu ser. Compreendeu que, embora as águas do mar o tenham transformado, sua essência permanecia ligada às correntezas do rio. Assim, entre mergulhos e lembranças, Yquetus encontrou o equilíbrio entre a curiosidade do viajante e o amor pela água natal. Sua concha da lua, guardada com carinho, tornou-se símbolo não apenas de coragem, mas também de gratidão pelas lições aprendidas em sua jornada. Após suas jornadas pelo mar e o retorno ao rio, o boto passou a contar a sua história. E iniciou a informação dizendo que ele foi escolhido pela princesa de Mayandeua para residir na ilha paradisíaca. A princesa, encantada pela história e sabedoria do boto, viu nele não apenas um símbolo de beleza e graciosidade, mas também um guardião das tradições e histórias das águas. Ao chegar a Mayandeua, sentiu-se em casa, rodeado pela exuberância da natureza e a hospitalidade do povo marítimo e encantados da ilha. No entanto, a sombra do passado pairava, onde lembrou que parte de sua família estava perdida. Determinado a desvendar o mistério que envolvia a sereia má que habitava o rio das águas escuras, o boto empreendeu uma nova jornada. Com a ajuda de amigos da ilha de Mayandeua e sua própria coragem, adentrou as águas misteriosas em busca de respostas.
Após enfrentar desafios e perigos, finalmente encontrou seus parentes perdidos, aprisionados pela sereia má em um domínio de escuridão e tristeza. Com astúcia e determinação, libertou-os das garras da malévola criatura e trouxe-os de volta à luz do dia. O reencontro com sua família perdida encheu Yquetus de alegria e gratidão. Juntos, retornaram a Mayandeua, onde foram recebidos com festa e celebração. A princesa honrou o boto como um herói da ilha, cuja bravura e compaixão restauraram a paz e a harmonia entre os habitantes do rio e do mar.
Porém, a tranquilidade durou pouco. Yquetus teve que retornar para o rio, mas todos os membros de sua família tiveram que ficar em Mayandeua. Segundo a princesa, eles estariam em perigo longe da ilha, pois a sereia má prometeu que iria atormentar a todos os que residem em suas águas. Assim, sem perder tempo, regressou para avisar a todos sobre o ataque iminente da sereia do mal e que também todos iriam residir em Mayandeua, onde estariam protegidos. Enquanto navegava de volta, a jornada de alerta e proteção preenchia seu coração com uma nova missão. Atravessando rios e lagos, reunindo todos os que poderiam ser afetados, ele tornou-se um verdadeiro líder, guiando seus semelhantes para um refúgio seguro. O caminho de volta estava cheio de desafios, mas a determinação de proteger sua família e amigos era um farol que iluminava seu trajeto.
Ao chegar ao rio, não apenas trouxe o aviso, mas também liderou uma migração épica para a segurança de Mayandeua. A princesa e os habitantes da ilha receberam todos com os braços abertos, e a ilha se transformou em um santuário de paz e esperança. Os novos moradores, embora saudosos de suas antigas casas, encontraram em Mayandeua um novo lar, onde a união e a cooperação floresciam. Assim, o boto, com sua concha lunar sempre consigo, tornou-se um símbolo de coragem, liderança e amor incondicional. Suas histórias, agora contadas por toda a ilha, inspiravam gerações a buscar a harmonia entre a exploração dos horizontes e o carinho pelas raízes. E assim, o mar, o rio e a ilha de Mayandeua viviam em uma sinfonia eterna, onde a bravura e a compaixão reinavam soberanas.
E então, a cigarra, com sua voz melodiosa, concluiu a narrativa para Primolius, o atento ouvinte, prometendo que a aventura de Yquetus ainda tinha muitos capítulos a serem vividos e contados. Afinal, as histórias que nascem do coração nunca têm fim, pois são escritas nas estrelas e nas águas, eternas e sempre renovadas.
FIM
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Projeto Literário e Musical Primolius Nº 0697


