*Nº 0695 - SAPATOS E RODOVIAS - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA
Direto de Mayandeua:
O sapato, com sua sola desgastada e o cadarço desamarrado, jazia solitário à margem da rodovia, como um enigma deixado pelo tempo. Abandonado, esquecido, ele parecia carregar uma história invisível, gravada nas dobras e cicatrizes de seu couro envelhecido. Quem o teria deixado ali? Por qual razão? Sua história, embora silenciosa, ecoava em cada marca deixada pelo uso, vestígios de uma vida que um dia o acompanhara.
Talvez aquele sapato pertencesse a um viajante, um andarilho que o perdeu ao descer de um ônibus para alongar as pernas, distraído pelo horizonte da estrada infinita. Ou talvez fosse de um dançarino, cujas noites de apresentações cheias de ritmo e emoção acabaram por consumir sua resistência. Quem sabe, um artista televisivo o usara para pisar em palcos e estúdios, vivendo sonhos efêmeros sob as luzes das câmeras e os aplausos de plateias distantes. Em cada hipótese, o sapato revelava algo mais profundo, algo que parecia ressoar com as incertezas e jornadas que muitos percorrem.
E, no entanto, ninguém parava para olhar para ele. Os carros passavam em alta velocidade, ignorando o mistério quieto que repousava ao lado da estrada. Os pedestres, apressados em suas rotinas, cruzavam o caminho sem perceber o que estava bem diante de seus pés. Mesmo os animais, que por vezes vagavam à margem da rodovia, mantinham distância, como se sentissem, de alguma maneira, a melancolia impregnada naquele pedaço de couro cansado.
O sapato, uma testemunha muda de tantas histórias não contadas, aguardava. Esperava por alguém que pudesse vê-lo não apenas como um objeto abandonado, mas como um relicário de memórias. Alguém capaz de se ajoelhar, pegá-lo nas mãos, e, talvez, enxergar nas cicatrizes da sua superfície as marcas de uma vida vivida — cheia de percalços, alegrias, danças e despedidas. Quem sabe, um colecionador de histórias encontraria aquele sapato e o levaria consigo, lendo os arranhões e manchas como capítulos esquecidos de um livro que há muito perdera suas páginas.
E assim, a pergunta silenciosa permanecia: qual história esse sapato ainda tinha para contar? Quantas jornadas ele teria cruzado? Mas, ao mesmo tempo, ele também evocava uma reflexão maior, algo que sussurrava aos transeuntes distraídos que seguiam em suas próprias vidas apressadas: "Qual é o meu sapato? E qual é o teu?" Em outras palavras, quantas histórias poderíamos nós mesmos estar carregando, sem sequer nos darmos conta, enquanto caminhamos, cada um com seus próprios desgastes, suas próprias marcas, ao longo dessa rodovia chamada vida?
O sapato abandonado, esquecido à beira da estrada, tornou-se, por um instante, mais que um simples calçado. Tornou-se um símbolo das jornadas invisíveis, das histórias perdidas, e das inúmeras vidas que cruzam umas com as outras sem nunca se tocarem verdadeiramente. Ele esperava por alguém que parasse, que olhasse com atenção, e, ao reconhecê-lo, talvez enxergasse algo de si mesmo nas marcas do tempo que ali repousavam. Afinal, todos carregamos nossos próprios sapatos — uns mais desgastados, outros ainda novos —, e todos têm uma história para contar, mesmo que ninguém pare para ouvir.
Pensando bem…
Sapatos...
Meias...
Muitos chegam com as grandes ondas do mar...
Mas, chegam.
FIM
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Projeto Literário e Musical Primolius Nº 0695


