*Nº 0665 - WOOD A JUBARTE CANTORA - SÉRIE: CONTOS FANTÁSTICOS DE MAYANDEUA

 


Wood era uma jubarte de grandes proporções e espírito inquieto, conhecida por sua incansável jornada pelos vastos oceanos. Com seus imponentes quarenta anos de vida, já havia explorado muitos cantos do mundo, sempre guiada por um desejo profundo: encontrar a música que tocaria sua alma. Ao longo de suas longas travessias, Wood ouvia e aprendia com as melodias que fluíam das terras próximas ao mar. Ela conhecia as canções dos pescadores que puxavam suas redes, os cânticos das mulheres nas margens dos rios e o som dos tambores que ressoavam nas vilas costeiras. Cada uma dessas músicas enriquecia sua jornada, mas ainda assim, Wood sentia que algo faltava. Faltava a música de sua vida.

Por incontáveis quilômetros, a jubarte seguia as correntes marítimas, atravessando oceanos em busca desse som especial, algo que fosse mais do que uma simples melodia, mas uma expressão completa de vida, natureza e cultura. Ela sabia que, um dia, essa canção se revelaria. Mesmo diante do cansaço de suas longas migrações, sua alma marinha permanecia em sintonia com os ritmos das profundezas e das costas humanas.

Os anos passaram, mas Wood jamais perdeu a esperança. Até que, em uma de suas viagens, enquanto nadava perto das águas quentes e mansas da costa brasileira, sentiu algo diferente no ar. Uma vibração, um chamado que vinha não do mar, mas da terra firme. Ela seguiu aquele som, que a conduziu a um lugar que os humanos chamavam de Vale da Princesa, uma região mágica e encantada. E foi lá, nas proximidades de uma pequena ilha, que Wood finalmente encontrou o que tanto procurava.

Naquela noite especial, enquanto o sol se punha no horizonte, as ondas trouxeram para ela o eco de uma música que jamais ouvira antes. Era o Carimbó, uma música nascida do encontro entre o mar, a terra e as raízes culturais profundas da região. O som do tambor, o canto cheio de vida, as palmas ritmadas… tudo parecia falar diretamente ao coração da jubarte. Wood se encantou pela melodia, que era ao mesmo tempo animada e suave, como as próprias correntes oceânicas. Era como se cada batida do tambor fosse o pulsar do coração da ilha, e a canção flutuava sobre o mar, atravessando o espaço entre o céu e as águas.

Wood ficou tão maravilhada que passou horas ali, ouvindo atentamente cada nota, cada verso, e sentindo como aquela música parecia se entrelaçar com as ondas que a embalavam. Foi ali que a jubarte entendeu que tinha, enfim, encontrado a melodia de sua vida. O Carimbó, com seu ritmo vibrante e cadenciado, era a música que havia procurado por todos os seus anos de viagem. Ela se aproximou da costa o máximo que pôde, e, ao som dos tambores e das vozes da ilha, Wood começou a cantar. Seu canto, profundo e melodioso, fundiu-se com a música humana, criando uma sinfonia incomparável entre o mar e a terra.

A partir daquele dia, Wood adotou uma das canções populares da ilha em seu repertório. Cada vez que passava por aquelas águas ou mesmo em mares distantes, ela entoava as notas daquela canção de Carimbó, como se quisesse compartilhar com o oceano e todas as criaturas marinhas a beleza e a força da música que havia encontrado. Seu canto agora tinha uma nova vibração, mais alegre e cheia de vida. Era como se as batidas dos tambores ressoassem em seu peito, e o vento levasse seu canto para além das ondas.

Os pescadores da região, homens que passavam suas vidas convivendo com o mar e seus mistérios, começaram a notar algo diferente. Algumas noites, quando o vento soprava do sul e o mar estava calmo, diziam ouvir um som inusitado vindo das águas profundas. Era o som de uma baleia, mas seu canto era especial. Não era o som grave e solitário que eles estavam acostumados a ouvir nas longas noites no mar. Era um canto que trazia consigo uma familiaridade, um refrão que soava como um Carimbó, uma canção que os homens da ilha conheciam bem.

Logo, a história começou a se espalhar. As pessoas falavam sobre a jubarte que cantava Carimbó, e os mais velhos contavam como isso era um sinal de que a música da ilha estava destinada a ecoar por todos os cantos do mundo, até mesmo pelos vastos oceanos. Dizem que até hoje, em noites de lua cheia, é possível ouvir o canto de Wood, misturado ao som do mar, repetindo os versos daquela canção que a tocou tão profundamente. Assim, Wood, a jubarte incansável, tornou-se parte não só do oceano, mas também da história musical da ilha e de seu povo. Ela, que por anos vagou em busca de sua canção, encontrou no Carimbó a melodia que ressoaria para sempre em seu coração e que, de tempos em tempos, ainda é ouvida pelas águas salgadas dos mares distantes.

E assim é! E será.


FIM

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Projeto Musical e Literário Primolius Nº 0665

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