* Nº 0498 - FRIO DE ALMAS - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA
Em meio à melodia aguda que preenchia a quietude antes da tempestade, o anjo azul traçou seu voo no céu cinza. Suas asas, como prismas vibrantes, pintavam o ar com sentimentos vivos — cada cor refletindo uma emoção distinta, cada movimento desenhando formas que pareciam dançar em sintonia com o universo. Era um balé silencioso, arquitetado por cores e sensações, enquanto a primeira gota de chuva se desprendia do céu.
A princípio, a chuva chegou como um sussurro delicado, quase imperceptível, como se hesitasse em perturbar o equilíbrio frágil daquele momento. Mas logo os trovões ecoaram ao longe, rompendo a calmaria com sua voz poderosa. Não eram meras gotas d'água; aquela chuva trazia consigo o peso do acaso fascinante, segredos derramados das profundezas do firmamento. Enquanto isso, nuvens pesadas começaram a se formar no horizonte, carregando consigo um milhão de incertezas. O céu, outrora uma paleta vibrante de azuis infinitos, mergulhava lentamente em um tom sombrio de prata. Uma lágrima solitária escapou do céu, manchando as páginas de um livro esquecido. Palavras escritas à mão há muito tempo começaram a se dissolver nas folhas molhadas, escorrendo para fora das margens, transformando-se em versos tristes que dançavam nas poças que se formavam no chão.
As cores vibrantes do entardecer, que até então resistiam bravamente, foram engolidas pelo cinza prateado que dominava a paisagem. A chuva, obediente aos caprichos dos ventos, mudava de direção constantemente, levando consigo os últimos resquícios de luz que ainda tentavam brilhar. Cada gota parecia carregar o peso do tempo, convidando olhos cansados a fechar-se e sucumbir ao sono. Naquele momento, era como se a chuva fosse uma forma secreta de ouvir vozes distintas — sussurros suaves vindos de um lugar inalcançável.
O tempo, implacável carrasco, roubava devaneios do peito, deixando apenas o vazio. De repente, o céu foi invadido por uma chuva cortante, cujos pingos afiados como punhais de gelo feriam a terra aqui e ali. A água corria veloz, arrastando consigo histórias para portos desconhecidos, onde ninguém conhecia a costa. O vento, como um artesão possessivo, moldava tudo à sua passagem, deixando um rastro gélido em rostos exaustos.
Os corpos pediam abrigo, um agasalho para proteger almas contra a frieza crescente. E, em meio a toda essa tempestade, uma única palavra emergiu, clara como um eco prateado em meio à onomatopeia do caos:
— Frio da Saudade.
— Silêncio no cais.
Era o murmúrio de algo perdido, um suspiro preso entre o céu e a terra, onde o tempo não ousava tocar. Um espaço suspenso, onde memórias e emoções se encontravam em silêncio, incapazes de avançar ou retroceder. O anjo azul, agora invisível, pairava sobre esse cenário, suas asas vibrantes tingidas de todas as cores do coração humano. Ele observava, impassível, enquanto o mundo abaixo era lavado por lágrimas celestiais.
E assim, naquele instante imóvel, a tempestade trouxe não apenas a chuva, mas também a promessa de renovação. Pois, mesmo no mais profundo frio da saudade, havia beleza — uma beleza que só podia ser compreendida por aqueles que já tinham sentido o peso de perder algo amado e, ainda assim, continuavam a olhar para o céu.
- Viagem inesperada!
FIM
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Projeto Literário e Musical Primolius Nº 0498


