* Nº 0496 - CHEIRO DE CHUVA - SÉRIE: CONTOS DE MAYANDEUA
A noite se apresenta, cedendo às suas entranhas os primeiros pingos de chuva que inundam a vastidão da Amazônia. O cheiro úmido enche o ar, trazendo com ele o aroma fresco da natureza renascente, uma fragrância peculiar que sempre precede a chuva no meio da floresta, nos meses mais frios do inverno. O eco distante de rãs e sapos harmoniza com as gotas de água que batem nas folhas largas das árvores de copa alta, criando uma sinfonia de bichos e estrondos na mata.
No quintal, as frutas já amadurecidas se banham sob essa chuva benfeitora, exalando um doce aroma que se mistura com o gosto de terra molhada. Despencam as mangas e as jacas, sacudidas pela força do vento e pela alegria dos trovões. Nas varandas, as redes penduradas convocam para um sono ritual, abençoado pelo frio de lascar que abraça o corpo, se misturando com as frescas gotas de chuva que respingam timidamente. A conversa na varanda se silencia, dando espaço para o sussurrar do vento e a cadência lenta da rede, marcando o ritmo de um sonho temperado pelo cheiro de chuva.
Querosenes iluminam o cenário, desenhando sombras hesitantes do contorno verde da floresta ao redor. Seus tênues reflexos dão vida às lendas que aqui enraízam, povoando a imaginação através do crepitar da noite. Por entre os longos galhos, sussurros de entidades da mata despertam. O cheiro de chuva evoca a Feiticeira, com seus breus secretos, suas receitas de encantos e temores. E o Curupira, o protetor das florestas, emerge das sombras cheio de astúcia, pronto para defender seu território contra aqueles que desrespeitam a selva.
A chuva se intensifica, num ritmo que parece harmonizar com os batimentos do coração da mata. Enquanto a noite avança, a selva se aconchega nesta sinfonia aquecida pelo cheiro de chuva, entrelaçada em segredos revelados pela luz frágil das querosenes e envolvida no abraço acolhedor de suas lendas.
E assim termina mais um dia na Amazônia, na lúdica dança que une realidade e mito, humano e natureza, chuva e terra. No eco distante dos sapos, no sabor doce das frutas no quintal, nos sonhos nascidos em redes confortáveis e no aroma enfeitiçador do cheiro da chuva."
- Todos, adormecem em paz!
FIM
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Projeto Literário e Musical Primolius Nº 0496


