* Nº 0433 - A INFÂNCIA DE UM AMIGO - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA
Ele se recorda, com uma ternura quase melancólica, dos dias em que Belém era uma cidade vibrante em sua simplicidade. Não havia nada de grandioso ou monumental nela — pelo menos não no sentido que as grandes metrópoles modernas entendem hoje. Era uma beleza discreta, tecida nos detalhes do cotidiano, nas texturas das ruas e nos sons que ecoavam pelas esquinas. As praças, que pareciam cenários de histórias infantis, eram repletas de carrinhos de pipoca cujo aroma salgado e doce misturava-se ao calor da tarde. Cada grão estourado parecia contar uma história, um sussurro do tempo que passava, mas que insistia em deixar marcas doces na memória.
Os pirulitos moldados como corações, estrelas e luas não eram apenas doces coloridos, mas também promessas de risos infantis. Eram símbolos de encantamento, pequenas chaves para mundos mágicos onde a imaginação reinava soberana. E os cascalhos — ah, os cascalhos! —, feitos de coco ralado e leite condensado, eram pequenos tesouros que derretiam na boca, trazendo uma alegria que só os sabores da infância podiam oferecer. Esses doces simples eram mais do que meras guloseimas; eram pedaços da alma da cidade, fragmentos de uma cultura que ainda valorizava o artesanal, o humano, o genuíno.
As pessoas se conheciam, não apenas de vista, mas de alma. Havia sorrisos francos, abraços calorosos, apertos de mão que pareciam selar amizades eternas. Pelas ruas, os telhados das casas antigas do centro — com suas janelas de madeira, portas de ferro e varandas cobertas de flores — serviam de palco para o canto dos pássaros, melodias que embalavam as manhãs e anunciavam o cair da tarde. Era uma sinfonia natural, uma harmonia entre homem e ambiente que transformava cada dia em uma celebração silenciosa da vida.
Mas o tempo, inevitável em sua marcha, transformou a cidade. Os carrinhos de pipoca desapareceram, engolidos pela pressa e pela eficiência das máquinas automáticas. Os pirulitos viraram relíquias nostálgicas, guardadas em gavetas empoeiradas de memórias, enquanto os cascalhos foram esquecidos, substituídos por sobremesas industrializadas que nunca alcançaram o mesmo toque de afeto. As praças perderam seu encanto, substituídas por lanchonetes modernas e shoppings que anunciam promoções em idiomas estrangeiros. O som do triângulo do cascalheiro foi silenciado pelo zumbido monótono das esteiras rolantes e caixas eletrônicos.
As máquinas, brilhantes e impessoais, oferecem refrigerantes e sorvetes, mas não têm o calor humano do vendedor ambulante que, com seu sorriso largo e gestos carregados de significado, vendia mais do que produtos: vendia conexões. As pessoas, antes tão próximas, tornaram-se ilhas de silêncio e solidão. O toque humano deu lugar à tela dos celulares; o encontro na esquina virou mensagem de texto. Os pássaros se calaram, substituídos pelo ronco incessante dos motores e o caos das buzinas. Ele, aos 50 anos, sente-se um estranho na cidade que o viu crescer. As ruas, antes familiares, agora parecem labirintos sem alma. As pessoas, outrora companheiras, são rostos desconhecidos que passam apressados, indiferentes ao peso da história que pisam debaixo dos pés.
Ele fecha os olhos e, por um momento, tenta resgatar o som do triângulo do cascalheiro, aquele eco de um passado que parece mais vivo do que o presente. É nesse instante que ele percebe que precisa buscar refúgio em outro lugar, longe do ritmo frenético que sufocou sua cidade natal. Agora, ele vive em uma ilha, um refúgio de verdes e azuis, onde a natureza ainda canta suas melodias. Ali, o céu é um palco para estrelas, o vento traz consigo histórias de longe, e as ondas murmuram segredos de fora. Os pássaros ainda dançam nos galhos, e o cheiro da terra molhada pela chuva renova a alma. É um lugar onde o tempo parece ter parado, onde a simplicidade ainda reina. Mas ele teme. Teme que a ilha, tão pura e intacta, possa seguir os passos de sua cidade natal. Teme que a poluição manche o ar, que a ganância silencie os pássaros, que a modernidade apague as tradições. Ele teme que, um dia, a ilha perca sua identidade, sua essência, seu coração mayano.
Por isso, ele escreve. Escreve com a urgência de quem sabe que o tempo é um recurso precioso. Suas palavras são como pinceladas em uma tela invisível, pintando quadros de lembranças, alertas e sonhos. Ele escreve para preservar, para alertar, para lembrar. Sua crônica é um testemunho de amor, um grito de esperança, um apelo para que Mayandeua acorde para o próprio futuro. Ele escreve como quem planta uma semente. Uma semente de cuidado, de responsabilidade, de resistência. Porque ele sabe que preservar a simplicidade é um ato de coragem. Porque ele acredita que, enquanto houver quem escute os cantos dos pássaros e valorize os sabores do passado, ainda haverá esperança para o amanhã.
E assim, com palavras que são como ondas, ele espera que sua mensagem chegue longe, atravessando mares e tocando corações. Mayandeua não pode adormecer em sua própria beleza. Mayandeua precisa despertar e se proteger — para que o canto dos pássaros, o sopro do vento e o murmúrio das ondas nunca sejam silenciados. E assim o Tempo e a Esperança se confrontam através do vento e do mar...
- E lá no horizonte...
- Lá vai o sol e a canoa na maré!
- Mais um dia mayandeuano passou por entre as palavras...
Maré enchendo.
O som das águas que avançam lentamente sobre a areia parece ecoar dentro dele, como um lembrete de que tudo está em constante movimento. A maré que sobe traz consigo promessas de renovação, mas também advertências de mudança. Ele sabe que o futuro é incerto, mas também entende que o destino de Mayandeua depende da escolha consciente de seus habitantes. Será que eles ouvirão o chamado da natureza? Será que perceberão a importância de preservar aquilo que ainda resta?
Enquanto o sol se põe, tingindo o céu de tons alaranjados e violetas, ele permanece ali, observando. Observando o mar, as estrelas que começam a surgir timidamente, e o reflexo da lua nas águas tranquilas. Ele sabe que sua luta é apenas uma gota no oceano, mas também sabe que até as maiores marés começam com uma única onda. E, com essa certeza, ele continua escrevendo, plantando sementes de esperança em cada palavra, confiando que, algum dia, elas brotarão em forma de ação.
FIM
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Projeto Musical e Literário Primolius Nº 0433


