* Nº 0385 - UM SONHO DE VERÃO - SÉRIE: CONTOS DE MAYANDEUA
Há lugares que parecem guardar segredos antigos, como se cada grão de areia carregasse uma história não contada. A praia deserta onde ela se sentava era um desses lugares. Ali, o som das ondas parecia ser mais do que apenas água batendo na areia; era uma conversa constante, um murmúrio eterno entre o mar e o tempo. E ela? Ela era apenas uma ouvinte, alguém que há anos esperava por uma resposta que talvez nunca viesse.
Ela estava sentada em sua cadeira de praia, os pés enterrados na areia molhada, um livro aberto sobre o colo. Era um velho exemplar, com páginas amareladas pelo tempo e manchas que lembravam sal e lágrimas. Lia em voz alta, mas suas palavras se perdiam no vento que soprava incessantemente: "Nas entrelinhas das palavras amarelas, um livro de mar traz informes de marca d’água. Sem falta, os poemas compõem sua ansiedade. E o evangelho do mar subtrai a fotografia de muitos."
Quantos anos já haviam se passado desde aquela manhã em que ele partiu? Dez? Vinte? Ela perdera a conta. O tempo ali era diferente, marcado pelas marés e pelos ciclos da lua. Cada dia que nascia trazia consigo a mesma esperança de outrora, mas também a mesma dor. O mar, com sua paciência infinita, ensinara-a a aguardar. Mas não a ensinara a esquecer.
Enquanto olhava para o horizonte, ela viu algo — ou alguém — surgir da linha onde o céu encontrava o mar. Um vulto cambaleante, vestido com trapos molhados, caminhava lentamente em sua direção. Seu coração acelerou. Não podia ser ele. Não depois de tanto tempo. E ainda assim, havia algo familiar na maneira como seus passos hesitavam, como se o peso dos anos fosse grande demais para suas pernas cansadas.
Quando ele finalmente chegou até ela, mal conseguia respirar. Seus olhos, embora cansados, eram os mesmos que um dia prometeram um retorno. Ele falou, a voz rouca pela sede e pelo tempo: "Nas leis certas para os náufragos, as palavras grifadas trazem um dilema. Versos soltos, emoções gritam livre-arbítrio. Incrível necessidade de amar mais a liberdade."
Ela sorriu, mesmo sem querer. Suas palavras eram tão enigmáticas quanto sempre foram, mas agora havia algo mais nelas: arrependimento. Respondeu, tentando manter a voz firme: "Nas páginas do evangelho do mar… Não há segredos de búzios ou caracóis. Apenas o mar aberto, coberto de algas férteis. Enquanto o sol rastreia todo o horizonte."
Ele abaixou a cabeça, como se carregasse o peso do mundo nos ombros. Talvez carregasse mesmo. Ficaram ali por um longo momento, frente a frente, enquanto o vento soprava ao redor. Finalmente, ela disse: "A cada manhã, segundo o evangelho do Mar, tudo era antecipado conforme as marés… Enquanto eu estava lá… Mirando meu mar, perfeita com minha forma poética."
Ele levantou os olhos, encontrando os dela. Havia dor neles, mas também amor. "No baixar das luzes do horizonte… Você seduziu um náufrago para sua ilha… Para você, eu não precisava seguir suas Leis… Apenas deveria apreciá-la novamente naquele pôr-do-sol," ele respondeu.
As lágrimas que ela tanto tentara conter começaram a rolar pelo seu rosto. "E assim, Deus abençoava sempre aquele momento," murmurou, quase inaudível. Ele estendeu a mão, hesitante, como se temesse que ela fosse desaparecer. Quando seus dedos se tocaram, ela percebeu que ele estava tremendo.
Mais tarde, estavam sentados dentro de uma pequena cabana à beira-mar. Uma vela oscilava sobre a mesa entre eles, sua chama dançando ao ritmo do vento que entrava pela janela. Lá fora, uma tempestade distante ecoava trovões, mas ali dentro havia apenas silêncio — e perguntas não feitas.
"Você prometeu voltar," disse ela, sua voz embargada. "Disse que o mar não seria mais forte que nós. E então… Desapareceu. Sem uma palavra, sem um adeus."
Ele abaixou a cabeça, envergonhado. "Eu tentei. Juro que tentei. Mas o mar… Ele não larga quem ama. Ele me engoliu, me prendeu em suas correntes. Anos perdidos em ilhas desertas, lutando contra a solidão e a loucura."
Sua raiva borbulhou, mas logo deu lugar à tristeza. "E eu? O que fiz eu senão esperar? Cada pôr-do-sol, cada maré, cada página desse maldito livro… Tudo era você!"
Os trovões aumentaram, como se o céu compartilhasse sua dor. A chama da vela quase se apagou, mas permaneceu firme, como eles dois. Ele pegou suas mãos, seus olhos suplicantes. "Perdoe-me. Eu não soube escolher entre o mar e você. Mas agora… Agora sei que o mar nunca foi meu lar. Meu lar é aqui, com você."
Ela ficou em silêncio por um longo momento, dividida entre o perdão e a mágoa. Por fim, apertou suas mãos e assentiu. A tempestade começou a se acalmar, e o som das ondas retornou, mais suave agora.
Na manhã seguinte, estavam de volta à praia. O céu estava limpo, pontilhado de estrelas que começavam a desaparecer com a chegada do amanhecer. Sentaram-se lado a lado na cadeira de praia, observando o horizonte. "Sabe," disse ela, com um sorriso tranquilo, "o mar ainda guarda nossas histórias. Ele nunca esquece."
Ele apertou sua mão. "Mas agora… Somos nós quem escrevemos o próximo capítulo."
Ficaram ali por um longo tempo, apenas observando o horizonte. O som das ondas os envolveu, como uma melodia eterna. E quando o primeiro raio de sol surgiu no céu, ela soube que, de alguma forma, estavam começando de novo.
Maya agradece!
FIM
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Projeto Musical e Literário Primolius Nº 0385


