* Nº 0382 - DIÁRIO DE UMA ILHA CAMINHANTE - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA

Ela caminhava pelas ruas da cidade, envolta em seus pensamentos como uma névoa silenciosa. O sol brilhava intenso, e as folhas brotavam nos galhos das árvores que sombreavam os telhados, anunciando a chegada da primavera. Ao passar por uma livraria, ela parou, seus olhos percorrendo as capas dos livros expostos na vitrine. As palavras impressas pareciam arder diante dela, evocando reflexões profundas. Pensou então na presença invisível de emoções — nas linhas tortas traçadas pelos cegos, que enxergavam o mundo com outros sentidos.

Ela era uma guerreira das palavras, resistindo às adversidades da vida com versos que eram tanto escudo quanto espada. Talvez ninguém entendesse o verdadeiro significado de seus poemas, mas isso pouco importava. Escrevia para si mesma, para dar forma ao oceano de sentimentos que habitava dentro dela, um mar de proeminências impossíveis de serem completamente elucidadas. Em seu diário poético, Mayandeua permanecia viva — um nome, uma história, uma memória.

Ela era poeta de uma vida ou talvez de um apego distinto. Seu amor era soberano, mas suas palavras muitas vezes se inclinavam para a alienação. Nada saía perfeito, nem mesmo as coisas mais simples; as palavras protestavam à sua maneira, cada uma buscando seu próprio lugar. Mas apenas ela, com seus olhos únicos, conseguia captar o instante exato em que um poema encontrava seu término, lá onde as águas da Pedra Chorona refletiam o céu e guardavam segredos insondáveis de muitos que já se foram pelo mar da vida.

Assim, ela vivia na sina que havia criado para si mesma, e seu nome ecoava nas marés indecisas do tempo. Poetas são seres arremessados aos pés do isolamento, inquietos, alimentando-se de suas próprias ideias. Os mistérios de sua marcha eram como os anseios de um planeta que lentamente definha sob a irresponsabilidade de alguns. No fundo, ela amava profundamente aquele lugar distante, cuidava dele à sua maneira. Porém, suas palavras clamavam por socorro, implorando para que não destruíssem sua ilha tão querida.

— E lá na Pedra que chora... brevemente ela desaparecerá. Com ela, muitos encantados também partirão.

Caminhando pelas ruas da cidade, ela lembrava-se do mar e do vento, forças que moldavam sua alma e guiavam seus passos. 

— Mayandeua seguia o seu destino.


FIM 

© Copyright de Britto, 2021 – Pocket Zine 

Projeto Musical e Literário Primolius Nº 0382


Mensagens populares