* Nº 0384 - O CANTO DE FATYLE - CONTO FANTÁSTICO DE MAYANDEUA
Fatyle trazia consigo mapas úmidos e búzios, memórias herdadas de sua avó, uma rezadeira que desaparecera sob a lua cheia. Da avó restara apenas um medalhão de concha, que Fatyle carregava ao peito, pulsando como um coração que respirava ao compasso das marés. Certa noite, o vento soprou diferente. O céu se abriu em relâmpagos que riscaram o mundo, e o mar, em resposta, ergueu-se em colunas de luz. Ela, em vez de temer, ergueu os braços e entregou-se à correnteza. O oceano a envolveu num redemoinho de brilho e, quando as águas acalmaram, ela se viu em outro tempo, outra dimensão das mesmas águas: Mayandeua em seu estado primordial, onde o real e o sagrado se fundiam.
Ali, os seres do mar sussurravam orações, e as águas falavam com voz de mulher. Fatyle compreendeu que havia atravessado o véu entre o mundo dos homens e o espírito do oceano. As criaturas do lugar a receberam com espanto e reverência: sereias de olhos translúcidos, homens peixe de fala lenta e grave, crianças d'água que brincavam. Elas a cercaram, reconhecendo nela uma energia antiga, a afinidade dos que amam o mar não como posse, mas como espelho de si mesmos.
Mas algo se quebrara naquele equilíbrio. O mar, adoecido, perdia sua cor e seu canto. O sal amargava, e as ondas, antes alegres, gemiam como se tivessem febre. Foi então que surgiram os Guardiões de Mayandeua, seres entre a carne e a correnteza, moldados na fronteira entre o humano e o profundo oceano. Entre eles, um de olhar firme se aproximou, Jynis, cuja voz soava como o ressoar de búzios nas manhãs de calmaria. Ele revelou a antiga profecia:
“Uma filha da superfície cruzará o espelho das águas.
Em suas mãos repousará o fardo do equilíbrio:
curar o mar ou perder-se nele.”
Jynis mostrou-lhe que o Coração de Mayandeua não era um objeto, mas uma força latente, viva, pulsando sob todas as ondas, a própria alma do oceano. Disse-lhe que, se o coração parasse de pulsar em harmonia com o das criaturas da superfície, o mar se voltaria contra o mundo dos homens. Com o medalhão sobre o peito, Fatyle sentiu um calor crescer, como se o próprio oceano respirasse dentro dela. As águas começaram a se erguer, formando uma coluna espiral de luz líquida, e nela o mar revelou seus segredos: as dores das redes que sufocavam os peixes, o lixo das cidades, o óleo das máquinas, as cicatrizes deixadas pela pressa humana.
Fatyle chorou, e suas lágrimas tornaram-se gotas luminosas que se fundiram à água, purificando-a. O mar respondeu. Uma maré suave varreu Mayandeua, lavando as sombras. Os peixes voltaram a aparecer, os botos saltaram no ar, e as ondas retomaram sua canção ancestral na areia. Jynis, diante dela, compreendeu: ela havia se tornado o elo que o oceano esperava. A mulher da superfície havia doado não o corpo, mas o espírito, a entrega que renova em mais um novo pacto com a natureza daquele único lugar da Amazônia.
“A vida é feita de partidas”, murmurou ela, “mas o mar… o mar fica.”
Então, uma brisa quente atravessou o horizonte, e Fatyle se dissolveu na claridade, não como quem morre, mas como quem regressa ao lar. Desde então, contam os pescadores que, nas madrugadas sem vento, uma mulher de cabelos de espuma e olhos de lua surge sobre as águas, guiando os barcos perdidos. Chamam-na “a encantada de Mayandeua”, aquela que uniu o coração do oceano ao coração dos homens.
E quando a maré sobe e o vento canta entre as dunas, quem escuta com o coração jura ouvir o seu nome repetido pelas ondas:
Fatyle… Fatyle…
Seu sopro é o ritmo do mar.
Seu legado, o eterno canto da ilha.
- Assim narrou Primolius!
FIM
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Projeto Musical e Literário Primolius Nº 0384


