* Nº 0383 - AZUL MOMENTO - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA




Caminhava descalça pela praia, os grãos de areia  deslizando suavemente sob seus pés. O vento brincava com seus cabelos, agitando-os enquanto ela corria em direção às ondas que lambiam a costa. Seu sorriso era leve, quase etéreo, como se cada passo deixasse marcas não apenas na areia, mas também no tecido invisível do tempo. Ela sabia que aquele momento era único, impregnado de um azul profundo e intenso — o mesmo azul das areias que a envolviam. Para muitos, aquela tonalidade poderia parecer estranha, surreal até, mas para ela, era uma extensão de sua própria consciência. Era o seu refúgio, sua verdade.

Ela caminhava sem pressa, como uma peregrina seguindo uma trilha traçada pelo destino. Embora soubesse que o futuro era incerto, como as marés que avançam e recuam sem avisar, ela enfrentava o desconhecido com a mesma coragem com que corria contra o vento. A brisa suave acariciava seu rosto, trazendo consigo o aroma salgado do mar e o som distante das ondas. Ali, naquele espaço entre o céu e a terra, ela buscava ouvir apenas o ritmo constante de seu próprio coração, pulsando em harmonia com o mundo ao seu redor.

A cada passo dado, suas pegadas se iluminavam em tons de azul, como pequenas estrelas cintilando na areia. Era como se ela emanasse luz por onde passava, aquecendo sua alma sempre que o caminho parecia esfriar. Sua jornada era feita de contradições: o calor da vida contra o frio da solidão, o movimento incessante contra a quietude do infinito. Mas ela continuava, impulsionada por algo maior do que palavras poderiam descrever.

Quando o dia começava a se despedir, tingindo o horizonte com pinceladas amareladas, ela se deitava sobre a areia, contemplando o céu que lentamente se transformava em um manto estrelado. Ali, imóvel, sentia-se parte de algo muito maior. Como uma estrela cadente, ela viajava em pensamentos, cruzando galáxias internas e externas, sempre em frente, sempre em busca do que o destino lhe preservara.

No silêncio da noite, percebia que tudo ao seu redor — o mar, o vento, as estrelas — era um reflexo de si mesma. Tudo estava conectado, fluindo como um ciclo contínuo. No final, tudo se transformava em chuva. As lágrimas do céu desciam para abraçar a terra, alimentando rios, mares e almas sedentas. Era o ciclo das águas, o ciclo da vida. E ela, com seus passos azuis, fazia parte dessa dança eterna, marchando em direção ao desconhecido com a certeza de que, mesmo no fim, haveria sempre um novo começo.

Ela: A Saudade!


FIM

© Copyright de Britto, 2021 – Pocket Zine 

Projeto Musical e Literário Primolius Nº 0383



Mensagens populares