Nº 0353 - FOI EM BATISTA CAMPOS - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA



Carta-Crônica — Direto de Mayandeua

Há praças que não ficam na cidade. Ficam dentro da gente e de lá não saem, não importa quantos anos passem, quantas ruas mudem de nome, quantos prédios cresçam sobre o chão onde um dia pisamos descalços.

Lembro das tardes de chuva em Belém com uma precisão que envergonha o calendário. As árvores  consanguíneas, como se fossem parentes nossas  abriam os braços sobre as calçadas e faziam sombra como mães que não perguntam se você precisa, apenas oferecem. E entre os galhos, entre o vento e a garoa morna, as borboletas azuis bailavam. Não voavam  bailavam. Havia uma intenção naquele movimento, uma leveza que só a infância sabe reconhecer como milagre.

As crianças tentavam pegá-las. Corriam com as mãos abertas voltadas ao vento, rindo daquilo que nunca alcançariam  e era exatamente nisso que estava a graça. Não na captura. Na perseguição. Naquela tarde que ficaria gravada no corpo para o resto da vida, mesmo que a memória não soubesse explicar por quê.

Já homem, voltei às mesmas praças. E as praças tinham voltado também  mas diferentes. O sol chegava diferente. As sombras, mesmo das árvores ainda de pé, tinham esquentado. As borboletas ainda estavam lá, em número menor, dançando um tango mais cansado entre o lago verde e o barulho dos carros. Voavam rasante, quase invisíveis, tentando ainda preencher o vazio dos transeuntes que passavam sem levantar os olhos.

Onde estavam os fotógrafos artesanais de outrora? As vendedoras de quebra-queixo à sombra das sumaumeiras? Aquelas presenças simples que faziam a praça ser mais do que um lugar faziam dela um tempo.

Do carro, parado no sinal, olhei para a velha praça e me vi de volta. Não como estava, mas como fui. Um menino de mãos abertas, perseguindo borboletas azuis que nunca se deixavam pegar  e era isso o que me ensinavam: que a beleza não se segura, se acompanha.

Ainda existem as asas azuis por aqui. Sobrevivem  no espaço e no tempo — como sobrevive tudo aquilo que o coração se recusa a esquecer.

Eternidade para estas praças.


- Assim narrou Primolius 


FIM 

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Projeto Musical e Literário Primolius Nº 0353


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