* Nº 0080 - TEMPO DE ANUNS - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA
Na Ilha de Mayandeua, cada aurora irrompe com um azul fascinante, um convite à calmaria. O silêncio matinal é quase palpável, uma tela sonora que aguarda o primeiro pincel do dia. Mas essa serenidade é frequentemente interrompida por uma figura enigmática: o anu-preto. Como um fragmento da noite que teima em permanecer, ele corta o azul com seu voo rápido e decidido. Um borrão negro, um contraste vivo que anuncia: aqui, a natureza dita as regras.
Ele se lança em acrobacias aéreas, emitindo um pio agudo, um chamado ancestral que ecoa pela ilha. É como se, a cada mergulho e ascensão, o anu-preto nos lembrasse de que Mayandeua é mais do que um pedaço de terra cercado por água; é um palco de histórias, um repositório de segredos das marés. E o anu-preto, com sua presença marcante, é a prova viva dessa magia.
À beira da praia, o cajueiro secular observa. Suas raízes, como braços retorcidos, agarram-se à terra, testemunhas silenciosas de incontáveis gerações. Dizem os caboclos, herdeiros do saber ancestral, que o cajueiro e o anu-preto compartilham uma conexão profunda. O pássaro conhece os segredos da árvore, cada sussurro de suas folhas, cada sombra projetada ao longo do dia. O cajueiro, por sua vez, sente a presença do anu, reconhecendo-o como um guardião, um mensageiro entre o mundo visível e o invisível. Superstição? Talvez. Mas na ilha, a linha entre o real e o imaginário é tênue, e o respeito pelas tradições é um elo que une a comunidade.
O anu-preto circula pelas roças, manguezais, dunas e lagos. Sua vigília é constante, seus olhos de brasa fixos nos passantes, como se lesse suas almas. Medos e esperanças se revelam sob seu olhar penetrante. Alguns moradores, ao avistá-lo, fazem o sinal da cruz, pedem licença, invocam a proteção dos ancestrais. É um ritual silencioso, um reconhecimento de que a ilha é habitada por forças que transcendem a compreensão humana.
Cada ovo que o anu-preto deposita é mais que uma promessa de vida; é um símbolo, uma lenda em potencial. Sinal de tempos incertos, prenúncio de mudanças, abertura de caminhos. A natureza fala por meio de seus sinais, e cabe aos moradores da ilha interpretá-los. Quando o vento uiva e o mar se revolta, o anu-preto não se esconde. Ele permanece, impávido, junto a seus companheiros, observando a fúria da tempestade. Parece compreender a força implacável da natureza e a fragilidade da condição humana. E quem se atreve a escutar seu canto à meia-noite, sob o luar prateado, vislumbra mais do que um presságio; encontra a essência da vida, o ciclo eterno de morte e renascimento, a sabedoria ancestral que emana da ilha.
Nos telhados de palha, nos galhos retorcidos, nos troncos cobertos de musgo, a presença do anu-preto é onipresente. Ele afasta aves menores, demarca seu território, protege a ilha como se fosse parte de si. É um elo entre o céu e a terra, entre o homem e a natureza. Incompreendido por muitos, chamado de "panema" por outros, o anu-preto persiste, ensinando a importância de ouvir com o coração, de sentir a alma da floresta, de se harmonizar com o ritmo das marés.
E quando a lua cheia se esconde no horizonte, banhando a ilha em prata, os anu-pretos se reúnem nos galhos mais altos. Seus cantos ecoam na noite, seus voos se transformam em danças. O tempo suspende sua marcha, e quem observa, em silêncio, compreende que Mayandeua não pertence ao homem, mas a todos que a reverenciam.
O anu-preto, sentinela incansável, continua sua vigília. Entrelaçado nas raízes do cajueiro, refletido nas águas da praia, presente nos mitos e na realidade, ele é um farol da memória, um guardião da sabedoria ancestral. Um convite constante a contemplar, sentir e entender que cada criatura tem um papel vital na sinfonia da vida. E que a liberdade, a força e a magia sempre pairam no ar, embaladas pelo voo eterno desse guardião alado.
E assim, na Ilha de Mayandeua, a vida segue seu curso, cheia em mistério e beleza. As gerações se sucedem, aprendendo a ler os sinais do tempo nas rugas do cajueiro e nos voos do anu-preto. A cada amanhecer, o pássaro negro renova sua promessa de vigília, lembrando a todos que a ilha é um santuário, um lugar onde a natureza reina soberana e a magia se manifesta em cada detalhe. Que a melodia ancestral de Mayandeua continue a ecoar pelos séculos, guiando os corações daqueles que a chamam de lar. E que o anu-preto, com sua eterna dança entre o céu e a terra, siga sendo o guardião incansável desse paraíso perdido, desse segredo bem guardado nas areias do tempo.
- Assim narrou Primolius!
FIM
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Projeto Musical e Literário Primolius Nº 0080

