* N° 0938 - PRENTYUS O MARISCO DO BOIADOR - SÉRIE: CONTOS FANTÁSTICOS DE MAYANDEUA
A vida de Prentyus era um ciclo regido pelas marés e pelos ventos. Passava a maior parte do tempo aprisionado nas fendas das pedras mágicas, alimentando-se de minerais e pequenos organismos que a água trazia. As pedras, imbuídas de uma energia ancestral, vibravam em sintonia com o ritmo do oceano, e Prentyus, em seu interior, absorvia essa energia, fortalecendo seu espírito e afinando sua voz.
Quando Setembro se aproximava, a impaciência crescia em Prentyus. Sentia o chamado do vento, um convite irresistível para emergir e cantar. As tempestades que varriam a costa nessa época eram temidas por muitos, mas para Prentyus, eram a chave para a liberdade. Na noite mais ventosa do mês, quando a maré recuava, Prentyus sentia as pedras mágicas tremerem. O vento uivava como um lobo faminto, chicoteando a água e a areia. Com um esforço supremo, impulsionava seu corpo contra as paredes rochosas, raspando sua carapaça e sentindo a dor da libertação.
Finalmente, livre! A brisa salgada invadia seus pulmões, e a vastidão do céu estrelado o deslumbrava. Era hora de cantar. A voz de Prentyus, carregada de melancolia e beleza, ecoava pelos manguezais. Era um lamento pelas vidas que se perdiam nas tempestades, uma celebração da resiliência da natureza e um chamado à esperança. Sua canção se misturava ao som do vento e das ondas, criando uma sinfonia única e mágica. Os pescadores que, porventura, ouvissem o canto de Prentyus sentiam seus corações se encherem de uma paz inexplicável. Acreditavam que a melodia trazia sorte e proteção. Com o amanhecer, o vento amainava, e a maré começava a subir novamente. Prentyus sabia que era hora de retornar para as pedras mágicas. Deixava para trás o eco de sua canção, a promessa de um novo Setembro e a esperança de que sua voz tivesse tocado os corações daqueles que a ouviram.
E assim, Prentyus, o marisco cantor de Mayandeua e Algodoal, continuava seu ciclo mágico, aprisionado e livre, melancólico e esperançoso, tecendo com sua voz o ritmo e o destino das pedras mágicas do Boiador.
- Assim narrou Primolius!
FIM
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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0938