*Nº 0662 - VAQUEIRO DO CAMPO DE NAZARÉ - SÉRIE: CONTOS DE MAYANDEUA



Às margens da vila de pescadores, próximo à entrada dos barcos, uma mangueira majestosa ergue-se, testemunha silenciosa de um ato simples, mas profundamente significativo. Quem plantou a árvore era um homem idoso, de cabelos brancos como a espuma do mar e mãos calejadas pelas labutas de uma vida dedicada ao oceano. Sua pele, marcada pelo sol e pelo sal, falava de incontáveis dias enfrentando as ondas e noites de contemplação sob as estrelas.

Naquela manhã, ao plantar a mangueira, o velho não sorriu. Não houve canto para acompanhar o gesto. Seu rosto, sério e concentrado, refletia a serenidade de quem compreende a profundidade do próprio ato. A semente, enterrada com cuidado na terra fértil da ilha, simbolizava mais do que uma simples planta; era a materialização de um desejo de permanência, um legado silencioso. O capitão sabia que seu tempo estava chegando ao fim, que o descanso eterno se aproximava.

A mangueira, com suas folhas e frutos doces, cresceria e floresceria, contando a história do velho marinheiro. Não seriam suas aventuras em mar aberto ou as proezas de pescaria que perpetuariam sua memória, mas sim a árvore, erguida como um monumento natural. A sombra da mangueira e os frutos que dela brotassem seriam testemunhos de sua vida e de suas canções. Na vila, todos conheciam o capitão, não apenas por suas façanhas marítimas, mas também pelas toadas que entoava, melodias que falavam do mar, da saudade e do amor. Suas canções ecoavam nas noites calmas, misturando-se ao som das ondas. Era através dessas canções que ele se conectava com a comunidade, compartilhando histórias e emoções. 

A mangueira, com o passar dos anos, tornou-se um símbolo dessa conexão. Enquanto a árvore crescia, o tempo seguia seu curso implacável. O velho, já cansado, foi levado pelo vento numa manhã fria de inverno. Seu corpo pode ter partido, mas seu espírito permanecia entre as folhas balançantes e os frutos suculentos da mangueira. Cada fruto colhido, cada sombra desfrutada, era um lembrete da presença do capitão, uma extensão de sua vida e de suas canções. A mangueira não era apenas uma árvore, mas um elo entre o passado e o presente, um símbolo de continuidade e lembrança. Para as gerações futuras, ela contaria a história do homem que, silenciosamente, deixou sua marca na ilha, não através de monumentos de pedra, mas através da sagrada natureza das mangueiras. E assim, na simplicidade de um gesto, o capitão garantiu que sua memória viveria para sempre, enraizada no coração da vila e na essência da terra que ele tanto amava.
Na sequência, surgiu esta toada para o Capitão:


CANTIGA DAS SETE LUAS


Adiante do desejo

Vem chegando a força lunar

Menina lua, 

Vem trazendo a enchente com charme.

Vem brincar de boi bumbá.


Ilumina a lua dourada

Chama a princesa pra dançar

Preenche de cor as sete luas

Mayandeua é o meu lugar.


Sete luas na canção

Fruta graúda no esplendor

Maré cheia, ondas na areia.

Sete luas do meu amor.


Virgem da noite a cantar

Toca tambor para o povo bailar

E por baixo das sete luas

Mayandeua é a Deusa do Mar.


(Descanse em paz Capitão)


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Projeto Musical e Literário Primolius Nº 0662

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