*Nº 0661 - VALE ENCANTADO DOS TURÚS - SÉRIE: TEATRO POPULAR DE MAYANDEUA
Peça em Três Atos
Cenário: Um manguezal, com um tronco de madeira apodrecida e uma árvore jovem. Luzes coloridas e sons da natureza.
Personagens:
- Turus (um grupo de seis atores com roupas e máscaras de moluscos)
- Árvore (uma atriz com roupa e maquiagem verde)
- Narrador (um ator com roupa neutra)
Ato 1: O Manguezal e seus Habitantes
Narrador entra em cena, iluminado por uma luz suave, enquanto sons de natureza preenchem o ambiente.
Narrador: No coração do manguezal, onde a terra se encontra com a água, vivia um tronco de madeira apodrecida. Esse tronco era o lar dos turus, pequenos moluscos que se alimentavam de madeira. Para os turus, o tronco podre era uma casa aconchegante, um refúgio quente e macio. Eles não viam a beleza da madeira, pois, para eles, a madeira era apenas comida.
Turus entram em cena, fazendo movimentos sincronizados e emitindo sons de roer e mastigar. Eles se aproximam do tronco e começam a perfurá-lo com as cabeças.
Narrador: Perto dali, uma jovem árvore, um mangue-vermelho, crescia vigorosamente. Ela exibia suas folhas verdes e saudáveis com orgulho, usando suas raízes para respirar e suas folhas para eliminar o sal. A árvore adorava ver seu reflexo na água, maravilhando-se com sua própria beleza.
Árvore entra em cena, fazendo movimentos graciosos e olhando para o público. Ela se posiciona ao lado do tronco e começa a balançar as folhas.
Ato 2: O Encontro e o Conflito
Árvore ouve o som dos turus roendo a madeira e se volta para eles.
Árvore: Quem está aí, comendo madeira?
Turus param de roer e olham para a árvore, surpresos.
Turu 1: Somos nós, os turus.
Turu 2: Nós comemos madeira porque é bom.
Árvore: Como podem comer madeira? A madeira é a base da vida de uma planta. Ela nos sustenta, nos nutre. É nosso corpo e nossa alma. Como vocês não veem isso?
Turu 3: Nós não vemos assim.
Turu 4: Para nós, a madeira é comida.
Turu 5: É o nosso sustento e nosso abrigo.
Turu 6: Nós vivemos da madeira, como você vive da terra e do sol.
Árvore: Mas vocês enfraquecem a madeira, tornando-a frágil e cheia de buracos. Não podem encontrar outro alimento? Algo que não destrua nossa casa?
Turu 2: Nós fazemos parte da natureza, assim como você.
Turu 3: Cada criatura tem seu papel.
Turu 4: Não podemos mudar nossa essência.
Árvore pondera, tentando entender a perspectiva dos turus.
Árvore: Eu lamento que vocês não possam apreciar a madeira como eu. Ela é mais que comida, é vida.
Turus também refletem sobre a perspectiva da árvore.
Turu 4: E nós lamentamos que você não possa ver a madeira como nós vemos – um sustento essencial.
Ato 3: Reflexão e Respeito
Árvore e turus se encaram, percebendo que apesar das diferenças, ambos têm razões legítimas.
Narrador: E assim, no mangue, cada um seguiu seu caminho. A árvore continuou a crescer, fortalecendo-se na terra úmida, enquanto os turus seguiram roendo o tronco, encontrando sustento e abrigo.
Árvore e turus se afastam, cada um voltando ao seu lugar.
Narrador: Esta história nos ensina que a natureza é um mosaico de seres diversos, cada qual com seu papel e sua forma de viver. Devemos respeitar essas diferenças e buscar entender o mundo através dos olhos dos outros. Não podemos julgar a vida de outro ser pela nossa perspectiva, mas sim apreciar a riqueza e a diversidade que a natureza nos oferece.
Luzes diminuem gradualmente, sons da natureza se intensificam, e o palco se escurece.
Narrador: No mangue, como em qualquer lugar, todos têm seu espaço e sua função. E é essa diversidade que faz a natureza tão rica e fascinante.
Todos os personagens se reúnem para uma reverência final, celebrando a diversidade do manguezal.
FIM
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Projeto Musical e Literário Primolius Nº 0661
Projeto Musical e Literário Primolius Nº 0661


