* Nº 0951 - VIOLA BRAGANTINA - SÉRIE: CONTOS DE MAYANDEUA









Sob um luar que se derramava pelos mangueirais e acariciava o mar, a ilha de Mayandeua repousava. Ali, na varanda, ele se encontrava, a viola de pinho quase uma extensão de si. A brisa trazia consigo tanto o calor do dia que findava quanto a promessa da noite que se aproximava. Os versos que lhe acorriam à mente eram mais que meros rabiscos em papel; eram um diálogo íntimo entre a alma e a paisagem que o envolvia.

O amor, por aquelas paragens, florescia de maneira singular. Assemelhava-se ao tambatajá e  frutas de casca amareladas. Assim o  sentimento  se entrelaçava com a maré, com o lento amadurecer dos frutos e com o aroma do mangue que exalava da vazante. Assim a espera era sua companheira, não a espera ansiosa e impaciente, mas aquela que se rendia ao ritmo vagaroso da ilha.  Este aguardava a jovem que exalava charme e mistério. Diziam que ela vinha para os festejos do boi bumbá da vila, mas ele pressentia que sua verdadeira missão era subverter a ordem lunar que tanto prezava.


A viola estava pronta, afinada para o cerimonial bruto e sincero que brotava do coração de um caboclo  apaixonado. Enquanto dedilhava a primeira nota, absorto em pensamentos sobre a  moça, com seu caminhar confiante, era a própria lenda, surgindo da praia como um sonho. A brisa trouxe o aroma da flor-de-maracujá em um riso abafado.

"A minha lua é de Mayandeua ", pensou, este com a certeza de quem ama sua terra. Ela responde  que o seu amado é  de Bragança. A crônica se tornou realidade. A espera chegou ao fim, adornada com todas as cores daquela noite de lua cheia.

Ela se aproximava... linda.




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Projeto Musical e Literário Primolius Nº 0951




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