* N° 0073 - LAMENTO DO CÁRCERE - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA





Escutai o filho da mata, descendente remoto das terras verdes, cujas raízes se entrelaçam com a história ancestral deste solo sagrado. Ouvi o antepassado ferido, o retirante das noites enluaradas, cuja alma carrega o peso das memórias esquecidas e dos sonhos desfeitos. Eis o protegido de Tupã, o guardião dos segredos da floresta, que traz suas reminiscências nos pés descalços, marcados pelo caminhar constante entre árvores milenares e rios serpenteantes. Ele fala com os rios e animais em uma linguagem que só ele compreende, um conhecedor profundo de frutos, árvores e ciclos naturais. Com a graça de quem conhece cada recanto da floresta, cada sussurro das folhas ao vento, ele se move. No entanto, sua jornada é marcada por dor e luta, reflexo do abandono e da devastação que assolam seu lar.

Escutai o filho da mata, pois ele traz consigo o brado ancestral que ecoa pelas matas devastadas. Encontrando-se acabrunhado, já não fala sua língua-mãe, quase extinta, perdida nas sombras do tempo. Ele é o retirante das matas defuntas, um sobrevivente em meio à ruína, exaurido e desorientado, que chora a perda de seu mundo e de sua identidade. Suas lágrimas caem como gotas de chuva sobre a terra ressequida, um lamento pelo que foi arrancado e pelo que ainda pode ser salvo. Escutai o filho da mata, pois ele aguarda o forasteiro com fervorosa esperança. Seu coração, embora ferido, ainda pulsa com a força da resistência, clamando por aliados que compreendam a urgência de sua causa. O conflito que o consome é uma chama viva, um grito contra a aniquilação.

Eis que surge Curupira, o guardião mítico das florestas, protetor dos seres silvestres. Sua presença é a resposta ao clamor do retirante, uma força primordial que se levanta contra a destruição. Com seus pés virados para trás, ele confunde e desafia os invasores, protegendo os segredos e a vida da floresta. Curupira, com seu espírito indomável, representa a luta incessante da natureza para preservar-se. Ele é a manifestação da ira e do amor pela terra, um guerreiro que não cede diante da adversidade. Ao lado do retirante, ele faz ecoar um grito de resistência, um apelo para que todos ouçam e compreendam a urgência de proteger a mata.

O filho da mata e Curupira juntos simbolizam a aliança entre o humano e o divino, entre o mortal e o eterno, na defesa da natureza. São uma crônica viva de nossa época, um lembrete poderoso de que a luta pela preservação é contínua e vital. Em meio às sombras da floresta, a voz do retirante e o espírito de Curupira se erguem como um só. Eles clamam por um futuro onde a mata renasça, onde cada árvore, cada rio e cada criatura possam viver em harmonia.

Escutai o filho da mata, pois sua mensagem é clara: a luta pela preservação da natureza é a luta pela própria essência da vida. E enquanto a noite cai sobre a floresta, um novo dia se prepara para nascer. A esperança se renova, e a batalha pela salvação da mata continua. O filho da mata e Curupira permanecem vigilantes, guardiões de um tesouro que pertence a todos nós, um legado que deve ser protegido para as futuras gerações.

- Lamento na mata!
- Primolius atento!

FIM

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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0073

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