*N° 0077 - ENTÃO O “CUMPADI” FALOU - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA
No coração dos lares, o aroma do pau de cheiro se espalha, impregnando os cantos dos compartimentos com perfumes que evocam memórias e tradições. As prateleiras, improvisadas com criatividade e engenho, exibem no centro pequenas garrafinhas milagrosas, verdadeiras joias do cotidiano. São elas que afastam o odor persistente de pixé de peixe e querosene, transformando o ambiente com sua magia simples. Nos igarapés próximos, a alegria dos meninos é contagiante, mergulhando na liberdade das águas enquanto o sol brilha. Nos quintais, a comida é preparada com amor, reunindo famílias que se acumulam em torno de uma mesa farta. À noite, a lua cheia iluminará os céus, e as vilas e o bairro do Maracanã se encherão de vida com festas que celebram a união e a alegria de viver.
No quintal, a produção é caseira, "estratos" feitos com mãos habilidosas que conhecem os segredos das plantas e das ervas. No dormitório, roupas são engomadas com carinho, preparadas para o domingo que se aproxima. O carvão aquece o ferro, que desliza sobre o tecido, imprimindo nele a marca do cuidado. É domingo, o dia da missa, o dia da gente. As moças do lugar, Marias, Beneditas e Antônias, se preparam com esmero, enquanto as que vieram de fora, Rosangela, Adriany e Selma, se juntam ao ritual, praticando os episódios sociais que tecem a vida comunitária. Os olhares se cruzam, lenços nas mãos, e a expectativa cresce. À noite, haverá a grande festa da padroeira, momento de devoção e celebração.
Nas garrafas de bálsamo, misturas poderosas aguardam seu momento. Genital de bota e outras preparações se somam às folhas e ervas, que reinam absolutas nesta época de festivais. Os filhos, netos e bisnetos, todos engomados e cheios de orgulho, se reúnem em uma demonstração de fé e generosidade, traços marcantes destes cantos do interior. A família congregada partilha histórias e risos, enquanto as fofocas da cidade graúda fazem seu caminho entre as conversas. A meninada aproveita a oportunidade para namorar, suas primeiras paixões desabrochando entre as ruas e as praças. Muitas delas ainda carregam o cheiro de cueiro, lembrança da infância que mal ficou para trás.
Nas calçadas, os assentos se enchem de conversas e cheiros, perfumes que revelam a presença de moços e moças, todos ansiosos por se mostrar. O povoado se enche de fragrâncias, cada uma contando uma história, cada uma trazendo à tona antigas lembranças. Na praça, todos estão perfumados, como se o ar estivesse carregado de uma energia especial. É como se o perfume evocasse as antigas histórias dos avós e bisavós desta terra-mar, um lugar onde o passado e o presente se encontram em cada aroma, em cada rosto, em cada celebração.
- Fragrâncias por todo o lugar!
- Cumpadi cheio de extrato e de roupa gomada!
FIM
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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0077


