* N° 0068 - CANIÇO - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA



Os caniços acariciavam a água como se fossem dedos longos e finos, tocando a superfície em um gesto quase reverente. A cena era de uma beleza simples, mas carregada de significados profundos. Peles com escamas fugiam de maneira drástica, desviando-se das armadilhas que os homens lançavam nas águas. Era ali, naquele espaço entre o homem e o peixe, que se revelava a profunda razão da existência desses "cabocos" — aqueles que vivem das águas, que respiram o rio, que dependem dele para sobreviver.

Os caniços rasgam o tempo. Não apenas o tempo cronológico, mas aquele outro tempo, mais sutil, que corre nas veias dos pescadores e nas correntezas dos rios. Eles são testemunhas silenciosas de histórias antigas, de lutas diárias, de esperanças renovadas a cada amanhecer. Sofrem com o sal que os corrói, assim como os próprios pescadores sofrem com as adversidades do ofício. Mas, ao mesmo tempo, eles rejuvenescem uma nova força dentro desses homens, que lutam contra o tempo e suas intempéries, valentes cavalheiros de peles bronzeadas pelo sol inclemente.

Os peixes, astutos e velozes, desviam-se dos caniços por entre raízes submersas ou redes cuidadosamente colocadas. São criaturas que parecem dançar ao ritmo das marés, escapando das mãos humanas com uma graça natural. Mas os caniços não são apenas ferramentas; eles são sonhos materializados, ideais milenares do homem das águas. Representam o trabalho diário, a chuva e a tempestade que espreitam no horizonte, os perigos que rondam cada hora passada nas embarcações. A natureza trabalha ao som das batidas do remo, que nunca para, enquanto o marulhar das fronteiras ecoa em silêncio nas mãos calejadas dos pescadores.

Caniços cravados nas águas rasgam a velocidade de cada puxada. Há silêncio nas embarcações, um silêncio que fala mais alto do que qualquer palavra. É nesse momento que os caniços e as mãos dos pescadores chamam o vento, pedindo ajuda para atrair os cardumes. Pequenas ondas defloram as iscas e testam a paciência dos homens. Quando as ondas parecem sem asas, quando o furo não sorri e os peixes são escassos, o "caboco" tenta, de alguma maneira, sorrir. Ele sabe que a vida aqui é feita de altos e baixos, e que às vezes é preciso engolir o desespero para continuar.

Os caniços formam os seus credos, símbolos de fé e resistência. Famílias aguardam em casa o "pão" de escamas, sustento trazido pelas águas. Cada acoite nas águas é também um carinho, um gesto de respeito à Mãe-D’água, aquela que dá e tira conforme sua vontade. Os remos dançam nas mãos dos pescadores, movendo-se como tranças de bumbás de junho, em uma coreografia que mistura força e delicadeza. É o esboço de gerações inteiras de braços fortes, que traçam estratégias para enfrentar a imprevisibilidade do rio.

E então, quando tudo parece perdido, algo muda. Os caniços começam a voar de uma nova forma, acompanhando um novo barulho, um novo movimento da água. É o cardume chegando, finalmente. O "caboco" mostra os dentes para a Mãe-D’água, em um misto de desafio e gratidão. Ele sabe que ela é soberana, que ela decide quem sai vitorioso e quem volta para casa de mãos vazias. Mas ele também sabe que, enquanto houver caniços para rasgar o tempo e homens dispostos a enfrentar as águas, haverá sempre uma chance de vitória. Porque, no fundo, os caniços não são apenas metais. Eles são extensões dos próprios pescadores, símbolos de uma vida dedicada ao rio. São pontes entre o homem e a natureza, entre o presente e o passado, entre o sonho e a realidade. E, enquanto o sol nasce e se põe sobre as águas, enquanto os peixes continuam a desviar-se das redes, os caniços permanecem de pé, firmes e resilientes, escrevendo suas histórias nas correntezas do tempo. 

Assim é a vida do "caboco" das águas: um eterno diálogo com o rio, uma dança constante com o desconhecido. E, mesmo quando o furo não sorri, ele continua a remar, a puxar, a sonhar. Porque, afinal, foi a água que comandou desde o início.


- E o mar vai piriricando!

FIM

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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0068

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