* N° 0229 - AS FEIRAS DO SAL - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA
Nas feiras amazônicas, as barracas formam um verdadeiro mosaico de cores, cheiros e sons que envolvem o visitante em uma experiência única. As barracas que vendem peixes, crustáceos, buchadas e mocotós exalam um aroma forte, característico das águas e dos rios da região. Já em outras, o perfume adocicado das frutas tropicais, que chegam frescas de todas as partes da Amazônia, enchem o ar de diversidade. Mangas, açaís, cupuaçus e castanhas dividem espaço com iguarias regionais, tornando o lugar um verdadeiro mercado das estações. Visitar uma feira dessas é como mergulhar na alma social e cultural da região, onde se cruzam histórias de vida, comércio e tradição.
Os desejos são despertados e as conversas fluem em meio ao barulho dos vendedores e compradores. Para muitos, a feira é um local não apenas de troca de mercadorias, mas também de encontros. Ali, as dores de amores mal resolvidos são suavizadas, e os velhos temas, como o clube de futebol que há muito não ganha, tornam-se pautas de descontração entre fregueses e feirantes. É um universo em que as imagens e sons se mesclam: senhoras de lenços coloridos, correndo contra o tempo, buscando os ingredientes para o almoço, enquanto barganham com os vendedores. E, com palavras afiadas, muitas conseguem um bom desconto, desafiando a inflacionada realidade dos produtos da feira.
Nas feiras, o burburinho é constante. Vozes se sobrepõem, conversas se cruzam, criando uma sinfonia caótica, mas que segue um ritmo quase natural. Os espaços, delimitados de forma improvisada, organizam-se no desorganizado. Debaixo do sol forte ou sob as sombras de árvores antigas, os feirantes se espalham. Alguns em trapiches ou pontes de madeira, outros em barracas frágeis, oferecem seus produtos e, de quebra, algumas fofocas e flertes às mulheres que passam. Ali, a venda é mais que comércio, é uma troca de histórias, olhares e, por vezes, de promessas.
As crianças, com os pés descalços e os olhares atentos, também fazem parte desse cenário. Elas correm, brincam e, entre uma travessura e outra, esgueiram-se pelas barracas, à espreita de um camarão desatento, um punhado de farinha ou qualquer outra pequena recompensa. Para elas, a feira é um campo de oportunidades. Se não for pela brincadeira, que seja pelos trocados que ganham ao carregar as sacolas pesadas de alguma dona de casa ou senhorio mais generoso.
E não há feira sem um bom papo sobre futebol. Enquanto alguns homens se reunem para negociar, outros aproveitam o intervalo para tomar uma pinguinha ou cerveja e reviver as glórias – muitas vezes fictícias – dos jogos do fim de semana. Cada um se considera um craque, um herói dos campos improvisados, e suas histórias sempre têm lugar garantido ao lado de questões mais sérias, como a política local e federal. Conversas sobre melhorias para a cidade, críticas às administrações e promessas de uma vida melhor entram em pauta entre goles e risadas, porque a feira também é um espaço para discutir o futuro, em meio a todo o seu caos e vitalidade.
Tudo se vende e tudo se compra nessas feiras, onde o colorido da Amazônia se reflete em cada detalhe, desde as frutas até os peixes, passando pelas ervas medicinais e os utensílios artesanais. Mas, assim como tudo na vida, o dia na feira chega ao fim. À medida que a tarde cai, as barracas começam a se desmontar, e o burburinho diminui. Mas o ciclo se renova. Amanhã, antes do sol nascer, os mesmos homens e mulheres estarão lá novamente, prontos para recomeçar a jornada, talvez com um pouco mais de sorte, quem sabe após apostar no bicho e acreditar que o dia seguinte será melhor.
Assim, descrevo um pouco das feiras desse Norte pulsante, onde a vida segue em constante recomeço, e o coração da Amazônia bate forte a cada amanhecer. Amanhã, tudo se reinicia.
- E eu...
- Estarei por lá!
FIM
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Projeto Literário e Musical Primolius N° 229


