N° 0996 - MÃOS CALEJADAS - SÉRIE: CONTOS DE MAYANDEUA

 



Pedro e Isy voltavam do trabalho como em todos os fins de tarde. O caminho de areia era sempre o mesmo. As marcas dos pés se misturavam às deixadas pelo vento, como se a ilha também soubesse reconhecer quem vivia dela e para ela.

As mãos dos dois carregavam as marcas de muitos anos. Eram mãos endurecidas pela enxada, pelo remo, pela pesca, pelo sol e pela chuva. Mãos que nunca conheceram descanso completo, mas que jamais deixaram de se procurar ao final de cada jornada.

Os sapatos estavam gastos. As roupas já haviam recebido incontáveis remendos. Ainda assim, caminhavam com a leveza de quem havia descoberto um segredo que pouca gente compreende. A felicidade nem sempre mora onde existe abundância. Muitas vezes ela escolhe uma casa simples e duas pessoas que aprenderam a dividir o pouco.

Naquele dia havia um brilho diferente nos olhos de Pedro.

Sem dizer uma palavra, segurou a mão de Isy com mais força.

Ela sorriu.

O terreno estava comprado.

Não era grande. Também não possuía cercas, casa ou qualquer construção. Era apenas um pedaço de chão no Centro de Nazaré, em Mayandeua. Para muita gente aquilo não significaria quase nada. Para eles significava o começo de uma vida inteira.

Os moradores antigos diziam que naquela parte da ilha o tempo caminhava devagar. As tardes demoravam a terminar. As noites pareciam mais compridas. As lembranças permaneciam vivas por muitos anos.

Pedro acreditava nisso.

Isy também.

Ao chegarem ao terreno, os dois se ajoelharam. Tocaram a terra como quem cumprimenta um velho amigo. Nenhum dos dois falou durante alguns instantes.

O silêncio bastava.

Era um silêncio cheio de futuro.

Pedro imaginou uma pequena casa de madeira, uma varanda voltada para o vento e um quintal onde as crianças pudessem correr.

Isy imaginou um jardim de flores simples, um fogão de lenha e o café passando logo cedo enquanto o mar acordava junto com os pássaros.

Nada daquilo existia ainda.

Mas já morava dentro deles.

Voltaram para casa ainda de mãos vazias.

Ou talvez não.

Carregavam um terreno invisível dentro do peito, construído pela esperança de muitos anos de trabalho honesto.

As mãos continuavam calejadas.

Os sapatos continuavam furados.

As roupas permaneciam antigas.

Mas o coração havia encontrado um novo endereço.

Porque existem riquezas que não cabem em bancos, cofres ou escrituras.

Elas nascem quando duas pessoas transformam o trabalho em dignidade, o amor em companhia e um pequeno pedaço de terra no Centro de Nazaré, em Mayandeua, no lugar onde o tempo aprende a caminhar mais devagar e onde os sonhos finalmente encontram um lugar para criar raízes.


FIM

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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0996