... Nº 0973 - HISTÓRIAS DO CABOCLO DE MAYA - SÉRIE: CONTOS FANTÁSTICOS DE MAYANDEUA

 


Na encantada Mayandeua, onde o tempo escorre diferente e o azul do céu se confunde com a vastidão do mar, existem guardiões que poucos conhecem mas todos sentem. São presenças antigas, tecidas na essência da ilha  criaturas que habitam o limiar entre o visível e o misterioso, entre a pedra e o sonho.

Numa madrugada silenciosa, o Caboclo de Maya percebeu que algo estava desalinhado. Sentado em seu palácio de raízes aéreas, onde o mangue cresce desafiando a lógica, ele pitava seu cachimbo de bruma enquanto observava as estrelas se apagarem uma a uma. Suas mãos calejadas seguravam a linha de crina de Vento com a paciência infinita que só os muito antigos possuem. O anzol de nácar brilhava frouxo naquela manhã  como se também sentisse que algo no tecido da realidade precisava ser remendado.

Foi então que ele percebeu o chamado vindo das pedras à beira-mar. Não era um som, mas uma vibração que atravessava a água salgada, subia pelas raízes e chegava ao seu coração de musgo e sabedoria. A Sereia das Pedras estava inquieta. Ela, que habitava os rochedos desde antes da ilha ter nome, raramente se manifestava. Quando o fazia, era porque o mar carregava uma verdade pesada demais para guardar sozinho.

O Caboclo caminhou até as pedras. Ao passar pelo caminho do Farol Velho, avistou a Iguana Uly tomando seu banho de sol. A criatura de escamas verdes e olhos ancestrais ergueu a cabeça quando ele passou  num gesto que poderia ser saudação ou advertência.

Chegando às pedras, encontrou a Sereia em sua forma favorita: meio mulher, meio espuma, totalmente mistério. Ela cantarolava uma melodia que fazia os mexilhões se abrirem e as estrelas-do-mar dançarem devagar.

— Velho de raízes e sabedoria  ela disse, com voz que era ao mesmo tempo sussurro e trovão —, as pedras me contaram que uma palavra antiga está tentando escapar do fundo. Uma palavra que o Rei Mar aprisionou há muito tempo, quando o mundo era mais jovem e os humanos ainda não conheciam o nome do medo.

O Caboclo sentou-se numa pedra e esperou. A Sereia nunca tinha pressa em suas narrativas.

— A palavra é "esquecimento"  continuou ela, seus dedos traçando símbolos na rocha molhada. — Se ela subir à tona sem ser pescada e cozinhada adequadamente, a ilha inteira começará a se desfazer nas memórias. As crianças esquecerão as cantigas, os pescadores esquecerão o caminho de volta, as sereias esquecerão suas próprias canções. Até você, guardião das Palavras Soltas, poderá esquecer para que serve seu caldeirão.

O Caboclo assentiu devagar. Preparou sua linha com ainda mais cuidado que o habitual. O anzol de nácar precisava ser polido com a areia que só existe no ponto exato onde a última onda do dia beija a primeira sombra da noite.

Antes que pudesse lançar a linha, porém, um canto diferente atravessou o ar. Era o Itaquerê  o pássaro de plumagem impossível que mudava de cor conforme a luz e conhecia todos os caminhos aéreos da ilha. Ele pousou numa raiz, suas penas oscilando entre o azul-petróleo e o verde-esperança.

— O vento me contou que a Iguana Uly viu pegadas no caminho do Farol Velho  disse o pássaro, com voz de flauta de bambu.  Pegadas que aparecem e desaparecem, como se alguém caminhasse entre os mundos.

O Caboclo franziu a testa. Pegadas fantasmas eram sinal de que as fronteiras entre o reino dos vivos e o reino das lembranças estavam se adelgaçando. Se a palavra "esquecimento" estava tentando escapar, aquelas pegadas podiam ser de alguém que já deveria ter sido esquecido  ou de alguém tentando desesperadamente não ser.

— Precisamos trabalhar juntos  declarou o Caboclo.  Sereia, mantenha as pedras cantando. Enquanto elas cantarem, as memórias têm onde se ancorar. Itaquerê, voe até o Farol Velho e fique de guarda. Eu vou pescar essa palavra antes que ela contamine a ilha.

A Sereia mergulhou, e imediatamente uma sinfonia rochosa começou a ecoar  grave, profunda, vinda de dentro da própria terra. As pedras lembravam-se de quando eram montanhas, de quando testemunharam o nascimento dos oceanos. Enquanto cantassem assim, a memória da ilha estaria ancorada em algo mais antigo que o próprio esquecimento.

O Itaquerê alçou voo e em minutos estava sobre o Farol Velho, pairando como um guardião colorido. Seus olhos pequenos e penetrantes vasculhavam cada movimento, cada sombra, cada sussurro de presença.

O Caboclo lançou sua linha. O anzol de nácar cortou a superfície com um som que era meio sino, meio suspiro, e afundou nas profundezas onde a luz do sol nunca chegava. Lá embaixo, a palavra "esquecimento" nadava em círculos, buscando uma corrente que a levasse para cima.

Foi quase ao entardecer que ele sentiu a fisgada. A linha retesou com tanta força que quase escapou de suas mãos. A palavra havia mordido o anzol  e resistia com o peso de todos os esquecimentos acumulados ao longo de eras. O Caboclo puxou devagar, firme, com a técnica de quem pescou segredos do mar por incontáveis luas cheias. Cada puxão tinha que ser na medida exata: forte demais e a linha se rompia, fraco demais e a palavra escapava.

Naquele momento, no caminho do Farol Velho, a Iguana Uly ergueu-se sobre suas patas e sibilou. As pegadas fantasmas haviam voltado  mas desta vez eram diferentes. Eram pegadas de criança, pequenas e hesitantes, sempre na direção do mar.

O Itaquerê desceu em voo rasante e compreendeu imediatamente.

— É uma criança perdida no limbo da lembrança. Alguém que morreu há muito tempo, mas que ainda não foi completamente esquecida. Se a palavra subir, essa alma finalmente se dissolverá.

Na ilha, uma avó muito velha ainda acendia velas numa noite específica do ano. Ainda sussurrava um nome ao vento. Ainda mantinha viva a lembrança de uma neta que o mar havia levado décadas atrás. Enquanto aquela avó lembrasse, a criança tinha um fio tênue conectando-a à existência. Mas se o esquecimento tomasse conta, as duas se perderiam  a criança nas brumas do além, a avó na neblina da memória apagada.

O Caboclo finalmente puxou a palavra para a superfície. Ela emergiu relutante, escura como tinta de lula, viscosa e pulsante carregada de abandono, fedendo a flores murchas em túmulos sem visitantes. Ele a colocou em seu caldeirão de argila, que borbulhava em fogo baixo, e entendeu que esta palavra precisava de um tratamento especial.

— Memórias dolorosas também precisam ser esquecidas às vezes  murmurou.  Mas esquecimento seletivo, não total. Transformação, não destruição.

Adicionou ao caldeirão uma lágrima da Sereia das Pedras  chorada quando ela testemunhou um amor verdadeiro entre humanos. Acrescentou uma pena doada pelo Itaquerê, que carregava a essência de todos os caminhos aéreos e da liberdade de voar. Por fim, pediu à Iguana Uly uma única escama  aquela que guardava a paciência de esperar sob o sol e a sabedoria de observar sem julgar.

Quando todos os ingredientes se misturaram, a palavra "esquecimento" começou a mudar. Perdeu sua viscosidade negra e ganhou tons de cinza-pérola. Parou de cheirar a abandono e adquiriu um aroma suave de lavanda e despedida tranquila. O Caboclo mexia devagar, cantarolando uma canção que era meio ninar, meio oração.

O que emergiu do caldeirão não era mais esquecimento destrutivo. Era um esquecimento gentil  aquele que permite às pessoas soltarem dores antigas sem perder a essência de quem são, que deixa cicatrizes curarem sem apagar as lições aprendidas, que permite que almas perdidas finalmente descansem sem serem completamente apagadas da memória de quem as amou.

O Caboclo engarrafou essa nova palavra em uma concha e a enterrou na praia, no ponto exato onde as ondas nunca alcançam mas onde a maresia sempre chega. Dali, ela se dispersaria lentamente ao longo dos anos  curando quando necessário, nunca destruindo, sempre transformando.

Naquela noite, a avó muito velha sonhou com a neta. No sonho, a menina sorria e acenava. Depois se afastava, caminhando em direção a uma luz dourada, tranquila e completa. Quando a avó acordou, ainda lembrava  lembrava do amor, lembrava da alegria que dividiram  mas a dor aguda havia se transformado em saudade suave, do tipo que aquece ao invés de queimar. Ela soprou a vela daquela noite pela última vez, não de tristeza, mas de alívio. A neta havia chegado onde precisava.

No caminho do Farol Velho, a Iguana Uly viu as últimas pegadas fantasmas desaparecerem  não em desespero, mas em paz.

Os quatro guardiões se reuniram uma última vez naquela noite. O Itaquerê pousou ao lado do Caboclo, suas penas na tonalidade dourada do entardecer. A Sereia emergiu uma última vez entre as pedras, seu canto diminuindo até se tornar murmúrio. A Iguana Uly fechou lentamente seus olhos amarelos, voltando à vigília paciente.

Não precisaram de palavras. O equilíbrio estava restaurado.

O Caboclo voltou ao seu palácio de raízes aéreas, preparou nova linha de crina de Vento e poliu o anzol de nácar. Havia sempre mais Palavras Soltas para pescar, mais realidade para cozinhar, mais destinos para moldar. Esse era o trabalho  antigo, silencioso e necessário.

E Mayandeua seguiu existindo como sempre existiu: num tempo próprio, numa dimensão onde memória e esquecimento dançam em equilíbrio, onde o impossível é apenas o cotidiano usando outro nome.

Primolius...... uma deixa...

Se você um dia caminhar pelo trajeto do Farol Velho e encontrar uma iguana de olhos amarelos tomando sol, trate-a com respeito. Se avistar um pássaro de plumagem impossível cortando o céu, observe suas cores com atenção. Se ouvir um canto vindo das pedras à beira-mar, pare e escute.

E se sentir no ar o aroma de algo sendo cozinhado num caldeirão invisível, saiba que o Caboclo está trabalhando — temperando a realidade para que você não perca o rumo do azul.



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