* Nº 0953 - O ESPELHO QUEBRADO - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA
Era uma vez, ou talvez ainda seja, uma terra que nasceu não da argila, mas da eletricidade. Chamava-se Terra do Nunca Digital, e seu solo era feito de bits, suas florestas eram redes de fibra óptica, e seus mares, fluxos intermináveis de dados. Ali, não se caminhava com os pés, mas com os dedos. Não se respirava o ar, mas o brilho azul das telas. Era um mundo sem fronteiras, mas também sem abraços.
Tudo começou com uma promessa de comunhão, um feitiço tecnológico chamado Janelas para o Céu, que jurava unir o que estava separado, direcionar o planeta em uma só voz. E, de início, parecia um milagre. As palavras cruzavam oceanos em segundos, os amores floresciam em janelas virtuais, e os solitários encontravam eco em corações longínquos.
Mas o que é luz, cedo ou tarde, descobre a sombra que a acompanha. A promessa de liberdade tornou-se uma nova forma de prisão, silenciosa, sutil, quase doce. As pessoas começaram a criar versões lapidadas de si mesmas: sorrisos fixos, corpos sem rugas, existências sem falhas. O ser deu lugar ao parecer. O humano virou o curador de si mesmo e a vida, uma exposição permanente.
Na Terra do Nunca Digital, o amor tinha filtros, a dor era silenciada, e o silêncio... o silêncio era proibido. Quem não postava desaparecia. Quem não brilhava, era esquecido. A solidão, essa velha amiga da reflexão, foi cancelada por falta de engajamento.
E as palavras, essas pontes antigas entre almas, perderam seu timbre humano. Tornaram-se algoritmos de emoção, programadas para agradar. Já não se escrevia para dizer, mas para ser visto. Havia uma lógica estranha no ar, uma filosofia invisível que regia corações como códigos: todos eram observados, mas ninguém se via.
Houve quem despertasse...
Primeiro, um. Depois, outro. Pequenas rebeliões do sentir. Gente que decidiu não medir o tempo em curtidas, mas em respirações. Que escolheu desligar a tela para ouvir o som do vento atravessando as árvores. Esses rebeldes do silêncio redescobriram a doçura do instante não registrado. Voltaram a escrever cartas, a rir sem capturas de tela, a olhar nos olhos sem precisar decifrar ícones. Entenderam que o toque humano, esse gesto arcaico e simples, ainda era a tecnologia mais avançada que existia.
E então, pouco a pouco, a Terra do Nunca Digital começou a apagar-se. Não com o estrondo das revoluções, mas com o suspiro da consciência. O brilho das telas foi cedendo espaço ao brilho dos olhos, e a realidade, que por tanto tempo se escondera nas sombras, voltou a florescer, imperfeita, vulnerável, profundamente viva.
Os arquivos virtuais, antes tão sagrados, tornaram-se ruínas flutuantes no mar da memória. Servidores abandonados ecoavam mensagens antigas, como orações sem fé. E a natureza, paciente e sábia, reconquistava o espaço perdido: raízes invadiam cabos, cipós se enroscavam sobre antenas, e flores brotavam nas carcaças dos velhos aparelhos.
As cidades, agora mais silenciosas, reencontraram o som dos passos. Crianças aprenderam primeiro a correr, e só depois a digitar. O amor, livre das molduras digitais, voltou a ser confuso, intenso e humano. A dor, por sua vez, reencontrou sua voz, lembrando a todos que sentir,até o que dói é um privilégio dos vivos.
E o mundo, enfim, respirou.
Não se tratava de voltar ao passado, mas de lembrar-se de estar vivo. De existir com todas as falhas, as pausas e as imperfeições que fazem da vida um milagre que não cabe em pixels. Os sobreviventes do brilho voltaram a olhar o céu, não através das janelas de vidro líquido, mas com os próprios olhos, e viram que a luz verdadeira nunca veio das telas, mas das estrelas.
Assim, encerra-se a lenda da Terra do Nunca Digital, não com um ponto final, mas com um retorno. Porque cada vez que alguém desliga a máquina para ouvir o próprio coração, a Terra do Nunca se dissolve, e o humano, esse ser esquecido entre bits e sonhos, renasce.
E para aqueles que anseiam por se reconectar com a essência da vida, com a melodia primordial que embalou a criação, o chamado é simples: busquem o mar. Vão à beira d'água, permitam que a brisa salgada lhes toque a face e que a vastidão azul lhes cure a visão. Escutem o mar. Nele, no ritmo incessante das ondas, encontrarão a pulsação da Terra, o compasso ancestral que lhes guiará de volta ao lar. O mar não mente, não filtra, não exige. Apenas acolhe, ensina e renova. Deixem que suas ondas lavem os resquícios da Terra do Nunca Digital e que a imensidão marinha lhes revele a beleza singela do ser.
- Assim, Primolius sonhou!
FIM
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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0953


