* Nº 0130 - O PECADO DA ALMA - SÉRIE: CONTOS FANTÁSTICOS DE MAYANDEUA




Assim a cutia narrou, com sua voz miúda e firme, enquanto o vento da maré soprava histórias entre as folhas:

Na Ilha de Mayandeua, onde o tempo parece dormir e os caminhos são feitos de areia e lembranças, existe uma vila envolta por murmúrios. Dizem os antigos que ali vaga uma Alma penada, um espectro que ronda os quintais quando a lua se deita e os grilos fazem silêncio. Seu destino é visitar, especialmente, os lugares onde há filhotes de cachorros, gatos e outros pequenos seres da mata.

Segundo a cutia, esse fantasma é o espírito de um homem que viveu no Centro da Ilha, nos tempos em que o sal do mar ainda entrava pelas janelas das casas de taipa. Era pescador, desses que conhecem o humor das marés e o segredo das pedras. Mas, em certo dia, cometeu o pecado de usar filhotes de mamíferos como isca viva, acreditando que o sofrimento da cria traria mais fartura à pesca.

A Natureza, porém, nunca esquece. No seu leito de morte, o homem delirava febrilmente, dizendo ver pegadas de fogo à beira de sua rede. Alguns juram que foi a Curupira quem veio buscá-lo, o guardião das matas, aquele de pés virados, que persegue os que ferem os seres da floresta. Outros dizem que foi levado pelas Entidades do Fundo, seres aquáticos que reinam nas águas profundas de Mayandeua.

Esses espíritos, movidos por um misto de compaixão e castigo, selaram um pacto: o homem não descansaria no esquecimento, mas também não seria condenado ao inferno. Vagaria pela ilha, cuidando dos filhotes e dos animais feridos, protegendo-os de todo mal humano. Tornou-se, assim, o Guardião dos Filhotes, um espírito penitente que vagueia pelas sombras, redimindo-se através do zelo.

A cutia contou ainda que o fantasma se mostra mais ativo nas noites de vento leste, quando os galhos da Pedra Chorona choram com o orvalho da madrugada. Ali, dizem, o espectro trabalha muito, recolhendo ninhos caídos, libertando aves presas e afastando caçadores que se aproximam das trilhas sagradas.

Primolius, o papagaio ancião da floresta, confirma a história: viu com seus próprios olhos um vulto de luz branca pairando sobre os quintais, acariciando os filhotes dorminhocos como quem pede perdão.

E assim termina mais uma história desta terra-mar encantada, onde o real e o mágico se entrelaçam como as raízes das mangueiras antigas.

P.S.: Dizem que, em todas as noites, o espectro ainda passeia pelos “cantos” da ilha. E se ouvires o choro de um filhote ecoando na escuridão, não te assustes. Talvez seja o Guardião cumprindo seu dever  protegendo o que resta de pureza no coração da Natureza.


E assim termina mais esta história desta terra/mar encantada.


FIM

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Projeto Musical e Literário Primolius Nº 0130

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